miúdo redundo

Eu quero ser tudo
Um mistério profundo

Meu peito em escudo
Catarse do mundo

Eu quero ser mudo
Um coração vagabundo.

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balada esotérica

da substância que compõe os dias
mistura de acaso sem categoria
combinações solares lunares estelares
esbarro desprevenido no ombro dum desconhecido
risco reto que entortou, filme que queimou
dedo na quina, encontro na esquina
mãe que telefona, dançar de uma anêmona
céu em incêndio, pano azul sem dispêndio

E de repente me choco, te toco
sobressalto gama de estrela que exclama
teus olhos em cometa, desórbita violeta
da cor que nasceu num planeta que morreu

O tempo valsa sapateia, risca fósforo incendeia
passa feito vento e dispensa ritmo lento
acaso ocasionado, cabelo embaraçado
penteia dente e lábio num movimento sábio
momento que determina, aprende e ensina
vasculha a alma e irrita a calma
desfaz a cama, corpo em chama
em chama me chama.

não acredito em coincidência
sou mais da quiromancia
o astro no céu é ciência
ceticismo é discrepância

líquido acaso de motivo raso
tu aparece, meu peito cresce
para e me olha e corre e me molha
o tempo, o choque, o vento, o toque
mapa astral em ascendência acidental
casa quatro na lua, minha mão na tua
zodíaco permite que eu de bobo insiste
pra você vir, pra gente existir.

1

mantra de junho

livra-te do teu passado
dá espaço ao presente
liberta-te do teu fardo
vive aquilo que sente

conserta o teu erro
queima tua história pra reescrever
busca o bem sem desespero
faz valer o esforço de viver.
recomeça antes do início
termina depois do fim
vê em cada chance um indício
em cada chama um estopim.
agradece o aprendizado
ri de tuas lembranças
considera quem está do teu lado
ama com a inocência das crianças.

fortalece tua alma
escolhe bem tua jornada
trabalha em tua calma
faz do amor tua morada.
divide teu amor
com quem o merece e o alimenta
faz brotar da dor
aquilo que te eleva e te sustenta.

e tudo que um dia te atormentou
ficará marcado em teus braços
e tudo aquilo que te machucou
agora te faz dar novos passos.

livra-te do teu passado
liberta-te do teu fardo
dá espaço ao presente
vive aquilo que sente.

O mesmo vento gélido que fatia as maçãs do seu rosto numa manhã de outono se transforma na brisa que leva as cinzas daquilo que não mais lhe pertence. Evapora, transporta, dissipa. Espalha pelas ruas e pelos campos, adubando o solo com sua presença agora desapegada, torna-se parte do grande ritmo cacofônico orquestrado pelos minutos do dia. E a rotina corre e a música arranha na vitrola de brechó do amigo no último andar, arranha o disco de alarmes e buzinas e silêncio e sussurros, e se fecha os olhos vê que tudo é só parte de uma grande conversa, o monólogo de todos os sons que irradiam e luzes que gritam feito acordes e lampejos em veias de concreto, com seus transeuntes marcando o ritmo em passos acelerados, desviando do vagar alheio, atrasados para qualquer coisa pra chegar a qualquer lugar.

Até uma noite sem sono se metamorfoseia em manhã, manhã inundada em substância inflamável que incendeia e dissipa o azul e apaga estrelas e esconde luas. O mesmo azul se instala debaixo dos seus olhos, em suas roupas e em seus papéis, uma mancha anil indelével que esfria a sua cama e atormenta o sono. Mas logo é o mesmo azul de seu céu da infância, manchado por nuvens em formas de animais e deuses em suas carroças de luz água e ar. E seu remédio escorre no rosto por qualquer aperto em seu coração, um ser condenado a sentir e a sentir em dobro, o mártir daqueles que já não sentem mais nada, transbordando-se em suas lágrimas ingênuas de medo, de drama. A poesia que corre no concreto é apreciada pela mesma visão de girassóis dos campos de criança, correndo entre as hortas e subindo em árvores. O menino cresceu e agora entende seus olhos, suas mãos e um pouco de seu coração, ora aberto, ora apertado, marcado com os passos de sua vida tão breve entre estradas e bilhetes só de ida. Entende que seu caminho não tem volta, mas descobre que também pode seguir além de onde desfaz suas malas. Pode o dia nascer pela janela ou enquanto ruma a qualquer lugar. O importante é que esteja lá quando a combustão se inicia, fazendo com que tudo se movimente: estão fugindo ou estão voltando? Não importa. Estão indo em alguma direção, e isso basta.

E quando descobre um semelhante, entrega-se. Abramovic diz que é melhor não, mas apaixonar-se por outro que lhe reflete é inevitável, desde o dia em que a paixão foi limitada aos que conseguem sentir e sentir em dobro. E quem o faz logo transforma tudo em arte, a fala o gesto o corpo a tinta o pincel a tela. E esse ser que sente tanto do mundo é só mais um garoto criado na terra de montanhas e pinheiros, expulso com a missão de plantar dessas sementes que brotam em qualquer solo. Suas pragas são fortes e arrebentam o concreto e o asfalto, mas suas flores são raras e contrastam o cinza do céu e do chão, em cor de magenta em matiz. Seu sorriso saturado ilumina em gama, contagia modifica reluz em dentes tortos de juízo e inocência, convidando qualquer um a lhe dar o nome e a mão feito criança que brinca sem relutância com aqueles que aceitam entrar na roda.

E o pequeno ser segue, agora não tão pequeno, mas ainda cabe em sua cama. Segue desbravando os oceanos de seus lençóis e ateando fogo aos céus, na fé de que o mesmo acenda sua coragem de ver a manhã por fora da janela. Mas sem afogar ou torná-lo em cinzas, pois prefere voar e viajar por si só.

Quando eu decidi seguir esse caminho incerto que minha vida tomou…

Talvez eu fosse um garoto inocente demais.

Fui levando, achando que seria capaz de aguentar todo esse peso que decidi carregar. Nada seria páreo pra mim e pra minha vontade. Mas tempo vai, tempo passa, tempo corre e tempo revela tudo. E o tempo mostrou que ao invés de estar carregando esse mundo nas costas, percebi que em grande parte do caminho não era eu que levava todo esse peso. Eu arrastava correntes, pedindo ajuda no meio do caminho, parando quando achava que tinha atingido meus limites.
Até então, não há mal algum em pedir ajuda ou decidir a hora de descansar. Mas tantas noites sem dormir e tantas pessoas que apareceram dispostas a me ajudar mostraram que os males eram causados por ninguém menos do que eu mesmo, confiando na força alheia sem saber o que era e até que ponto meus limites podiam se exceder.

Descobri que eu parava sempre que algo me assustava. E nessas paradas estranhamente sempre tinha alguém com quem contar. Mas analisando tudo por agora, descobri que eu nunca cheguei a entender meus limites assim como nunca cheguei a conhecer a fundo as intenções dos tão bem intencionados. Alívio rápido. Zona de conforto. Fácil vem, fácil vai. Por essas aí. Quando eu parava era porque eu tinha chegado um pouco além. E quando alguém ajudava era porque estava ali na espreita, também cansado de andar. Mas andavam sem peso algum, ou porque já tinham passado dessa etapa, ou não tinham nem começado ou até mesmo deixado toda a carga cair em algum ponto e acharam melhor desistir e seguir sem ela.

Essa carga, esse peso, esse fardo. É o mundo todo nas suas costas. Você acha que está querendo dar uma de herói. Carrega tudo nas próprias costas, sozinho. Como um karma, um objetivo movido a suor, um sacrifício de sangue inocente. Que triste pensar dessa forma o tempo todo. Uma frase cristã um pouco adaptada pra minha realidade definiria tudo: A vida (não Deus) não te dá um fardo maior do que você possa carregar. Adaptando pra uma questão mais realista e menos mística porque escrevo pra atingir a todos, eu diria que na verdade nós vamos coletando coisas pra bagagem no meio do caminho, mas o maior peso é o caminho em si. Sabemos que não dá pra andar sem nada nas costas, mas sabemos que o realmente necessário tem um peso imenso mas carregamos como uma pluma. O necessário são nossos sonhos. E eu não sei aonde guardamos de verdade, se é em papéis, na cabeça ou no coração. Mas só precisamos deles e – apesar de terem toda essa carga de mudança – eles não podem nos impedir de voar.

Quando eu decidi seguir tudo isso, há quase três anos atrás, eu me achava o desbravador tranquilo que não teria barreiras que não pudesse ultrapassar. Dando com a cara no muro dezenas de vezes e vendo que a realidade maligna do mundo não vive só naqueles em situações extremas eu percebi que eu não era nada. Nada do que eu tinha do passado tinha muito valor aqui. Nisso, eu lidei com os extremos também. Idealizava minha independência mas vivia (ops, ainda vivo) sem um centavo. Queria cuidar de mim mesmo mas tinha preguiça de abandonar meus hábitos mimados. Buscava aprender, criar e conhecer mas não me empenhava em fazer nada até o final. Eu poderia culpar várias coisas e até ser compreendido em certos pontos, dizer que a cidade é um caos, que as oportunidades são poucas, que o ritmo é violento ou até porque meu mapa astral naquele momento dizia que tava foda mesmo. Mas culpar os outros e as situações não adianta nada. Eu tive de aprender na marra que são poucos os que querem realmente embarcar contigo na sua jornada e não tirar proveito disso. Isso me torna um pouco mais frio, mas o frio é necessário. As situações favoráveis e as pessoas que realmente se interessam em conhecer você vão estar dispostas a derreter todo o gelo que te envolve nos primeiros contatos. Assim como tudo que você vive e busca, você também precisa ser algo a ser conquistado.

O mundo sempre vai ser um caos. A cidade sempre vai ser um caos. Sua cabeça sempre vai ser um caos. Sua busca por paz interior é digna sim, mas aceite que a insatisfação e a revolta também são instrumentos que levam à ela. Eu escolhi estar em insatisfação constante, pois ela me leva a caminhos e meios inspiradores. Hoje em dia eu transformo a tristeza, a dor, a fome, a falta de grana, o cansaço e o caos em si em produto de inspiração. Você os reverte para meios e fins que levam ao bem. É como lapidar cristais brutos ou tirar a poeira de um livro velho. A essência benigna está lá, disfarçada em cascas grossas e enterrada em minas escuras, mas está lá.
E já não me deixo abater por insensíveis. Eu sinto, eu vejo, eu crio, eu vivo.
O que os outros não sentem, eu sinto em dobro.

A vida é tão rara e tão curta pra ser o segundo lugar de tudo ou deixar as coisas pra depois. E também pra cultivar coisas ruins. É como plantar uma pedra. Você vai se desprender, usar do seu tempo e energia pra cuidar e propagar algo que não vai resultar em nada, só na insatisfação de que aquilo nunca vai deixar de ser uma pedra e não uma árvore.
Aquela desavença com seu amigo podia se tornar uma chance pra vocês se encontrarem de novo e se desculparem. Aquele bloqueio mental podia ser a oportunidade pra você sair dessa e ir fazer algo novo. A dificuldade que você tá passando pode ser o estímulo pra você enfrentá-la e se orgulhar de tê-la vencido depois.

Eu digo tudo isso porque cansei de me culpar pelos males do mundo. Grande parte do que eu sinto é minha culpa sim, mas não por fazer parte dela e sim por permitir que eu a carregue sem precisar.
Tudo tá muito errado. Tudo tá muito sem jeito. Mas eu, tendo escolhido o caminho que segui, preciso saber nutrir toda essa onda em uma maré calma. Tempestades parecem ser coisas horríveis, mas alguém para pra admirar a luz dos raios e o barulho da chuva? Eu não quero me tornar um ser insensível com minha própria natureza e com aqueles que escolhi conviver. Eu vou ser um artista, eu vou estar rodeado de pessoas boas, eu vou criar a partir do caos e vou propagar coisas boas pelo meu caminho. Pois eu entendi que o fardo que carrego deixa minhas costas pesarem mas mantém minhas mãos livres.

Eu sempre detestei auto ajuda.

Mas em certos momentos da vida, somos os únicos que podem nos ajudar.

ainda é só um menino

com as mãos sujas de tinta

que anda por aí carregando flores

brinca de super herói

falido

que sabe salvar mas não pode ser salvo

que observa peixes e aquários

é julgado por caminhos errantes

e se perde em jornadas sem mapa

acende estrelas em pesadelos

dissipa a morte com oração da infância

o mesmo que chegou aqui

só mais silvestre

um tanto mais seguro

porém nunca satisfeito

pois ter algo a buscar ainda instiga

envolto em poções e rabiscos

pintando paredes e  corpo

corre pelo concreto

voa pelo incerto

faz o que lhe parece certo

respira o impuro

se inspira pelo desconhecido

se apaixona pela atenção

se ilude pelo coração

desfaz trevas com luz de velas

sente na pele a dor do tempo

abre todas as janelas

e ainda se entrega

feito folha

feito vento

e tropeça

cai

rala os joelhos

mas não se levanta

voa.

corações frios não se apaixonam por corações quentes.
corações frios se retraem ao primeiro indício de qualquer amor suficiente para derreter o gelo que os envolve.
corações quentes acabam em cinzas, numa tentativa desesperada de salvar aqueles que não mais sabem amar.
não existem corações mornos – o amor nunca é ameno.
ou incendeia
ou petrifica.