Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Meu mistério se dissolve em pouca água. É essa coisa etérea que permanece na roupa que a gente guardava há muito tempo, poeira de memória ou pura camada fina de proteção, um sopro e se esvai, revelando um lustre ou um não-lustre dessa matéria, átomo por átomo disposto a ser analisado e influenciado pela química aérea, pela alternância cosmológica e pela crença do esotérico. Eu sou isso e aquilo também, se quiser, se puder, se acredita em mim. De repente eu amo, hoje eu só quero ouvir música, quem sabe amanhã, num impasse divino, eu me reparto e vivo mais pela metade boa, a outra que guarda o chorume e as caixas de um acumulador nato de memórias, das que aprendi e das que quis esquecer, mas as organizo como um arquivo de consulta, preciso saber como lidar com isso que já vivi, mas aí os dados não batem, a situação é outra, a lição não ensina, ou das vezes que meus braços já não alcançam essa lembrança tão boa que eu nem sei qual é, mas o sorriso bobo dos dentes tortos insiste em ser mesmo sem saber por quê, e a metade boa rouba a feição e se congela por um instante, instante, mero segundo, mero momento, morre o momento, e logo aquele vulto de um passado bom já nem é mais um monumento, são ruínas e pedras lascadas, a outra metade se volta, meio rosto sem face, uma expressão insignificante, me perguntam, você tá triste, e eu quase que respondo que não sei.
Bobagem, essa andança. Queria passar invisível, mas ando tanto que logo me percebem, o tio da banca acha estranho o mesmo menino passando, eu não estou perdido, só estou marcando o chão português com meus passos, quem sabe um paralelepípedo se solta e com esse acidente do tempo eu redefino um espaço. Queria ser aquela pessoa misteriosa, que olham de canto, olham pro outro e dizem com os olhos qualquer coisa, e logo a despercebem, voltam a falar mal da cidade e do trabalho, foi só um vulto que passou interrompendo a existência fúnebre da rotina e do cotidiano, abalou por meio segundo com sua inevitável matéria e se foi, nem percebeu o olhar ou julgamento, passou correndo como alguém que não está atrasado mas ainda corre, passou. Me policio para não pagar de louco, com a lucidez insana da obviedade de que loucos são eles que não percebem as alienações diárias, loucos são eles que não param pra olhar o céu, loucos são eles que acham chato o desbotar de uma tinta e o desabrochar de um botão, lúcido-e-são sou eu, meu diagnóstico é quase de quem se curou sozinho da paranóia, mas no caso eu a aceitei e entendi que se andarmos juntos ela não me para, andanóia, mas somos eu e ela, andamos nós, íamos. Um corpo coberto de tecido leve, toda essa armadura esvoaçante, Zéfiro volta pro ninho ao fim da tarde e quase me leva junto, mas pesado que sou, mais na cabeça do que no peito, fico em terra, deixo que leve partículas e aromas, vezes que ele rouba uma ideia ou algo que eu não deveria esquecer, vezes que penso que mesmo que anotasse, talvez a mais leve brisa levaria o papel, not meant to be, essa ideia vai parar na mão de outra pessoa, que seja, antes em fluxo do que engavetada.
A dança do caos é mais estranha que a dança contemporânea, é nosso mistério em comum, o segredo que todos partilhamos, quase como o segredo de, ei, eu também sou humano, mas não conte a ninguém, não exige nenhuma preparação, exige resistência e alterna a percepção com a coincidência, exige um fôlego que ignora fumaça e dias secos, exige uma trilha sonora que mescla voz instrumento com sirene ruído, em ritmo de desvio dos outros e baldeações terrenas, dois braços e dez dedos que funcionam como se fossem em triplo movimento, é nossa carne crua e nua, é nosso ser fluído se misturando ao concreto, é nossa vida mostrando a ausência da morte, é o medo com coragem, sou eu são-e-lúcido e eu louco-e-paranoico dançando como se abracassem um inimigo, é a ciência e o místico desvendando o acaso e o improvável, é a tinta que escorre para desbotar um dia, é a lua que só é lua porque o sol ilumina. Passos lentos, depois frenéticos, expressões fechadas mas que querem dizer tanto, tanto, tanto quanto santos na terra, cada um com seu processo de beatificação, partilhando pecados para dividir a culpa e exibindo graças para o bem próprio, améns e aleluias ricocheteando no banho de nitrato desse grande espelho que é nosso espaço vivo e estático, uma estátua falante, um coração pulsante feito de pedra, prédios que visto de cima das nuvens mais lembram grandes lápides, pores e nasceres de um céu que cria um espetáculo violeta alaranjado de poluição e atmosferismos alquímicos, eu andando pelas ruas como se fosse descobrir algo na minha perdição.
São Paulo é um grande espelho embaçado que mesmo trincado reflete o céu e quem quer refletir por ela, ela cidade-gente, capital da órbita humana e do acaso cinza, das metades boas e das outras que não se distinguem em adjetivo, centro dos jornalistas literários, que sentem e centram a poesia dos metrôs na mais egoísta forma de registro, leem o mundo com o coração e a cabeça guarda pra um outro dia que nunca chega, e depois regurgitam tudo quase que em automatismo psíquico, ouvindo jesus died for somebody’s sins but not mine, bebendo chá de microondas ou qualquer besteira sem gosto, com o mesmo gosto do pó que é o mistério que (n)os envolve, com a mesma frieza da chuva de lâminas de vidro que por vezes nos faz correr pela cidade, enxergando com a pupila dilatada nosso espírito pobre que agora vaga vagarosamente vagabundamente por essas ruas, e te percebem, te entendem, você é alguém, um de vários, mas é visto, logo desvisto, logo desviam a atenção, mas te veem, roubam a ideia que Zéfiro soprou longe, chocam-se com a miséria da sua outra metade, morrem pelos seus pecados que você inocente achou poder pecar, e meu corpo de tecido leve e esvoaçante se desfaz igual meu segredo, meu secreto dom de saber o que pensam, a visão bizarra que tenho das pessoas ora como crianças, ora tendo orgasmos, meus feitiços de proteção diários, tatuagens que me arrependo, minha vergonha, minhas dores, meu sabor e minha lábia, de repente, todos expostos em um vagão de trem abafado, como se todos aspirassem essa matéria etérea, como se, naquele instante, todo mundo provasse da mesma dor, como se todo mundo risse da mesma piada.
Como se todo mundo cantasse a mesma música.
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eu, que quero tanto fluir
os outros, que querem tanto arder
respiro, um sopro a sair
se enterram, tentando entender

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A real é que eu sinto muito. Eu sinto demais.

As pessoas passam sobre minha vida tipo estrela cadente. Cada uma delas é uma surpresa tão boa. Você só as nota porque estava atento, calmo, bobo, olhando pro céu e de repente elas aparecem, você não tem reação, faz um pedido, fica feliz. São meteoros ou satélites? Talvez até pedaços de outra que findou sua existência cósmica: criou novos sistemas e planetas. Um pedido pra cada uma delas, sim. Uma promessa que espero. Eu espero tanto. Espero demais. Eu faço o pedido com o maior acalento, com o maior cuidado, tento não pedir  muito, tento ser humilde igual minha mãe me ensinou. Mas não adianta. Algumas estrelas só caem porque não brilhavam mais lá em cima.

Toda essa reflexão começou num dia de ócio, comigo na sala e as paredes rosas e laranjas, aproveitando o que seria um paraíso astral e férias forçadas no começo de uma primavera quente. Eu ouvia Patti Smith, ela gritando sussurros necessários, rolê de senhorzinho, podando as flores, consertando a casa. Eu ganhei flores duas vezes na vida. Todas as outras eu mesmo me dei de presente, cuidei e as deixei em eutanásia para preservar a beleza daquele semblante já sufocado sem suas raízes, num vidro de água da torneira. Eu olhei para todos aqueles vasos e por um minuto fui feliz, sorri e achei bobo sorrir por nada e sorri mais ainda por achar bobo sorrir do nada. Eu, fase azul turquesa, solitária, meio que. Eu, que amo as metáforas, já chamei de embolhamento, de retiro individual, de feriado auto decretado, mas na real é uma tristeza bem forte que me deprime e me põe atrás das portas, observando tudo das janelas como um refém do próprio medo, sorrindo para os carros da avenida e imaginando meu deus como eles parecem entediados pra onde tão indo será que tá calor nesse golzinho, a mulher acena, outro dia eu tava fazendo bolhinha de sabão na varanda e ela achou bonito e me mandou um beijo. Eu mandei outro e assoprei uma bolha, capaz que ela entendesse tudo o que aquilo significava.

Eu queria enfeitar o mundo. Saturar os matizes e plantar flores e trepadeiras em todos os lugares.  Mas, acima de tudo, eu queria poder colocar a mão no peito de alguém e enxergar todas as suas partes boas, pra nunca saber de todo o ruim que carregam. Porque dói tanto você sorrir sorrir sorrir e ela de repente te falta com o cuidado de cuidar de ti. Você, na tua tristeza, na tua bolha, no teu quarto, revirando os móveis, rasgando as roupas, explorando tuas veias, relimitando seus obstáculos, adoçando os olhos. Ele, perdido, sem um quarto, sem uma porta pra se trancar, não sabe de ti, não quer entrar sem bater, quer te dar o tempo que te falta pra curar, se preocupa, mas silêncio silêncio si lên cio. A telepatia não funciona sempre. O amor te dá pontes mas também cria barreiras, é daquelas coisas que te emprestam meio que dando mas você uma hora acaba tendo de devolver, te faz se sentir tão cafona mas um cafona feliz, sabe?  E o amor só funciona na telepatia. Palavra, carta, música, é, talvez a música e uma poesia ajudem a dizer umas coisas mas a real é que a mensagem só é entendida sem interferência pela telepatia. E quando as portas se fecham, as mãos não se tocam e os olhos não se adoçam nenhuma mensagem se capta. Não é um sinal total aéreo, precisa rolar uma energia, uma conexão ali de olho, de mão, de boca, de oxigênio. O amor contagia. É transmissível.

Daí que você encontrou mais uma pessoa cadente, caiu do teu céu direto pra tua varandinha, se camuflou no seu lençol de saturno e estrela, tem um astronauta na minha cama, tem algo tão transcendental entre a gente, eu nem sei o que é mas é tão tão, é tão cósmico. Cósmico nem é adjetivo pra se usar, mas é que vai além da terra, entende? E é tão bonito essa bobeirinha de início, tudo é engraçado, tudo é tão conforto, preguiça partilhada, deixa eu te apresentar meu mundo inteiro. Mas ele é astronauta, universo infinito, então que que ele vai me mostrar que já não seja meu também? Não faz mal, olha aqui toda essa bolha que eu criei, uma moça chama de realidade virtual, eu sei que é coisa pra terapia mas é que a real realidade tá tão difícil, então eu criei esse mundinho aqui. Aqui a gente pode pintar a parede de laranja fluorescente, não faz mal fumar na sala, vamos rabiscar as paredes, todo mundo é bem vindo, não tem preconceito com nada, a gente pode brincar de gato-mia sem achar coisa de criança, aqui a gente não cresce. Eu não cresci. E lá vou eu de novo, um a um desses outros seres que criaram suas próprias bolhas, apresento. Todo mundo tinha uma bolhinha bem pequena, cabia só uma cama e um caixote, a gente resolveu juntar tudo e não é que a bolha ainda não estourou? Daqui a gente vê São Paulo inteira, a cidade é meio biruta mas a gente é ainda mais, então funciona. E esse aqui sou eu, feliz que você tá aqui, é bom ser sozinho mas cansa. Fica o tempo que quiser.

Falaram uma vez que eu escrevo muito de amor. É que não tem graça escrever do que eu vejo na varanda, do que eu tenho nos livros da estante, do que eu sonhei mês passado. Eu quero falar, mil gestos com as mãos, me atrapalho todo, emendo assunto. Sempre uso “então, falando nisso” quando o que vou falar não tem nada a ver com a conversa, os amigos riem mas não param de escutar. Falando nisso, mês passado eu sonhei com você. E a vida é esse eterno deja vu, na real você não sente que já viveu aquilo, mas sim porque em algum dia você quis ser tão feliz assim. Conforto.  A gente estoca as lágrimas, vê uma janela piscando na madrugada, acha tão bonito. Bobeirinha boa, puxo papo com a moça do metrô, ajudo a senhorinha, ligo pros amigos pra falar que eles são tão bonitos, acordo dando risada da minha cara amassada. Momentaneamente, sou feliz. E uma memória puxa outra, a gente recicla o sorriso, a amiga pergunta “tu fumou, é?”.  Que nada, eu tô apaixonado. Maior cafonice do cosmo, todo um clichê que reforço, mas eu amo e quando eu amo eu quero enfeitar a casa inteira, cozinho todos os dias, eu não uso mais carvão pros quadros. É o pastel, a acrílica, sem misturar, cor pura fauvista impressionista, eu quero tirar foto de tudo. A casa se enche de flor, a bolha vai ficando pequena pra tanto amor que crio e partilho, sobra. Sobra e peço pra levarem pra casa, devolve o potinho depois, nunca devolvem, tudo bem. Mas aí acontece. Vai acabando. Esgotou o estoque, eu não durmo mais. Finjo que tem nada errado, tipo que seguro as pontas pra não fazer cena pra visita, não entrego os pontos. Reclamo pouco, só ando meio cansado, as coisas fora da bolha me afetam. E pop!, estourou. A parede de água e sabão translúcida se desfaz em mil gotinhas, espirra no meu olho, já vejo a real realidade com a visão ardida, dói. Tanta informação que não processei, tô atrasado no zeitgeist, sentiram minha falta? Sorry, tava dando um tempo de ser herói falido, agora volto, não mais herói, ainda falido. Eu esqueci como se salva uma vida.

Salvem-me, grito pelos olhos, comunico meu piscar em silêncio, oi, tá tudo errado aqui, me dá uma força. Mas a bolha estourou. O crisântemo murchou. A gérbera, antes tão vermelha, agora só folhas sem promessa florida. Tudo que eu planto morre quando eu também tô pra querer largar tudo. E, sem metáfora mas provavelmente com um drama que eu não coloquei na lista, eu queria morrer também, só um pouquinho. Poda a poda, adubo, água regulada, eu até conversei e dei nomes que já esqueci pra cada uma delas. Agora não me dão beleza, não adoçam meus olhos, sem cheiro, sem pétala, sem promessa. Eu não dou mais corda no relógio, a parede é só um laranja desbotado, melodrama tão permitido devido à situação. E o astronauta, se foi. Quis dar um tempinho ou eu mandei embora, eu não sou mais o mesmo, eu nem lembro se dormi ontem, muito menos se sonhei. Volto pro carvão, sem promessa de arte, só pra gastar e sujar a mão. E o astronauta, se foi. Foi e não quis arrombar a porta, eu agora grito em telepatia pra que alguém surja pela varanda e me impeça ou me encoraje de qualquer coisa, eu fiz o que não devia. Metáforas aliviam o peso das palavras, enfeitam até mesmo as mais dolorosas, mas até Patti Smith jogava umas verdades de vez em quando. Quando a realidade tá ali escancarada, o vento tão forte soprando ela pelas frestas da porta e pelas janelas abertas, sua fantasia de conforto se estilhaça, ricocheteia toda partícula e transforma seu ideal em indesejado, engulo a verdade, engulo a verdade, engasgo com a verdade, cuspo a verdade – o gosto ficou na boca, eu já sei – entendo a verdade. E agora todos antes presentes nas bolhas também estouram as suas, riem da tua realidade, melodrama, que exagero, já vi esse filme, deixa ele aí. E deixam. Eu sangro e estanco porque morrer dói sim, eu grito e abafo minha dor porque ninguém quer ouvir, e toda aquela mentira tão bem produzida desbota da memória, lembrança daquilo que eu queria ter acreditado por mais tempo. E você, e ele, nem notam. Se uma estrela cadente caísse em cima de mim só declarariam homicídio espacial uns dias depois, eu já poeira de nebulosa, eu já um sistema solar inteiro, eu já voltando de onde eu vim, observando tudo com uma percepção fria e sem gravidade: eterna. E o astronauta, se foi. E você, nem nota.

Eu abro meu mundo pra quem quiser. Pra quem eu quiser. E eu quero abrir pra todo mundo. Olha isso, olha aquilo, esse é ele, essa é ela, ah vocês já se conheciam, acasos bonitos, somamos à beleza da vida, vamos ser felizes porque esses dias pedem, vamos ser nós juntos enquanto é tempo. E o tempo acaba. A corda do relógio para. O tempo recruta todo mundo e de repente se juntam contra você, não pra acabar com o que te resta, mas pra rir da sua insistência. O que há de incrível na dor que eu ainda insisto? Se ninguém acredita, oh drama boy, você é um ótimo ator mas vamos partir pra outro roteiro, você tá queimando o filme, revela tua verdade.  A verdade é que a verdade é essa mesma. Vocês tão burrinhos, fofos, gosto tanto, gostei tanto. Não me orgulho da proeza do disfarce, até me prejudica. Mas, tão bobinhos. Eu sou isso aí, e agora você e você e ele e o outro ele riem de mim, ai meu deus isso de novo não. Eu que o diga, a mesma história, tá aqui meu mundinho pra você, primeiro grande estouro e  todos caem em terra, o baque faz com que desistam, eu, já acostumado, caio de pé. Eu insisto, você desiste, e assim o ciclo segue, tchau e todas as outras conveniências de todo esse teatro de te quero bem mas em outra vida maybe, posso pegar aquilo de volta, sei que é presente mas é que né.

Ciclo maldito. Mas antes isso que um quadrado, I’m a fool to want you e disso tenho noção, mas quando a música reforça: dói. Quem foi insensível, quem fingiu, quem deu menos, quem deu mais, quem o quê? Nessa altura pouco importa, leio no elevador, alguém escreveu com a chave. Escreveram meu nome. Faltou um L, risco. Não sou eu. Não sou eu subindo aqui de novo, mesmo andar, a chave gira, empurro a porta, a bolha de novo. Ninguém soprou por mim. Eu, no caminho, fui usando minha ofegância, de algo tem que valer. Ofegância dum misto de raiva e dor, agora eles estão lá como quem lê o jornal, você viu, ele tentou se matar mesmo? Se eu não soubesse tanto de karma e do quanto acabo valorizando a esperança quando resolvo insistir, juro que soltava uma dessas de que melhor se eu tivesse conseguido, só pra ver a cara de vocês do outro plano, poxa, a gente podia ter feito algo né? Mas o tempo passa e eu não quero ser um deja vu, eu quero viver sim e eu quero insistir e derrubar o tempo e todas as suas barreiras, e não mais momentaneamente, hei de ser feliz. Que pena a minha dor, doeu e quando tenho notícias do que lhe causou ela arde de novo. O tempo é inimigo mas também serve pra fechar ferida, então logo acaba. Mesmo quando te acertam no mesmo lugar que você acabou de cicatrizar, surpresa, here we go again, por que as pessoas são tão repetitivas quanto aos erros e não conseguem fazer a mesma piada ter o dobro de graça na segunda vez? É a vez de quem de fazer o outro sorrir, cansei de fazer os garotos rirem, não quero divertir, quero que me divirtam, não quero mais ter que surpreender, alguém pode me surpreender só um pouquinho? Canso. Quase desisto. Entre desisto e insisto, existo na dualidade das escolhas, um lado sempre vai pender mais do que o outro. O tarot já disse, cigana já confirmou, ou é trabalho ou é o amor, não que um anula o outro, mas já viu, né. Que assim seja. Trabalho com quem amo? Mas aí todos querem amar, ai que vergonha. Sai daqui, agora não, só me dá esse tempo, eu vou ser alguém melhor, é só uma fase, acredita em mim e outras tantas frases já automáticas que já não mais valem nada. Riem do clichê que eu me tornei e eu rio do nem clichê dos outros, antes um kitsch consciente do que um quadrinho de consultório, bleh.

A real é que o inferno astral me afeta muito, preciso descansar por uns bons dias. E ninguém entende, acha lindo astrologia mas quando o negócio pesa pra quem sente na real e não é só  dos achismos, acha bobeira, exagero, ai que drama, deixa disso. Mas eu sinto muito. Eu sinto demais. Eu sinto o que você não sente, eu olho pra tua cara e te vejo criança, logo volta a tua feição, mas eu te vi criança e que bom que eu te vi criança. A gente guarda o que foi bom mas também não por muito tempo. A metáfora clichê do coração partido parece besteira, mas quando acontecer contigo, tenta notar: estilhaça, trinca, sufoca, ofegância. Na maior das defesas de substância sólida ele se molda novamente, pouco a pouco se derrete em nova metamorfose. Esperando alguém para tirar suas asas, de novo. Ciclo. Metal heart, you’re not worth a thing, mas me ensinou muito. E quando eu digo que sinto muito, eu sou ambíguo, eu peço desculpas pelos erros e justifico que o que os outros não sentem, eu sinto em dobro. E nessas, todo mundo aprende que algumas telepatias a gente só finge que é a consciência falando.Tira férias forçadas, assopra as próprias bolhas. Some do mundo, sem melodrama suicida, mas também não deixa bilhete. E enquanto todos riem dos seus clichês, tenho que dar corda no relógio: não para. Conhecer astronauta é bom, mas olhar pro céu sem esperar estrela cadente também dá um negócio. Tropeço tanto, insisto no erro, mas pelo menos, insisto.

E dessa vez , eu cresci.

 

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Eu quero ser tudo
Um mistério profundo

Meu peito em escudo
Catarse do mundo

Eu quero ser mudo
Um coração vagabundo.

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da substância que compõe os dias
mistura de acaso sem categoria
combinações solares lunares estelares
esbarro desprevenido no ombro dum desconhecido
risco reto que entortou, filme que queimou
dedo na quina, encontro na esquina
mãe que telefona, dançar de uma anêmona
céu em incêndio, pano azul sem dispêndio

E de repente me choco, te toco
sobressalto gama de estrela que exclama
teus olhos em cometa, desórbita violeta
da cor que nasceu num planeta que morreu

O tempo valsa sapateia, risca fósforo incendeia
passa feito vento e dispensa ritmo lento
acaso ocasionado, cabelo embaraçado
penteia dente e lábio num movimento sábio
momento que determina, aprende e ensina
vasculha a alma e irrita a calma
desfaz a cama, corpo em chama
em chama me chama.

não acredito em coincidência
sou mais da quiromancia
o astro no céu é ciência
ceticismo é discrepância

líquido acaso de motivo raso
tu aparece, meu peito cresce
para e me olha e corre e me molha
o tempo, o choque, o vento, o toque
mapa astral em ascendência acidental
casa quatro na lua, minha mão na tua
zodíaco permite que eu de bobo insiste
pra você vir, pra gente existir.

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mantra de junho

livra-te do teu passado
dá espaço ao presente
liberta-te do teu fardo
vive aquilo que sente

conserta o teu erro
queima tua história pra reescrever
busca o bem sem desespero
faz valer o esforço de viver.
recomeça antes do início
termina depois do fim
vê em cada chance um indício
em cada chama um estopim.
agradece o aprendizado
ri de tuas lembranças
considera quem está do teu lado
ama com a inocência das crianças.

fortalece tua alma
escolhe bem tua jornada
trabalha em tua calma
faz do amor tua morada.
divide teu amor
com quem o merece e o alimenta
faz brotar da dor
aquilo que te eleva e te sustenta.

e tudo que um dia te atormentou
ficará marcado em teus braços
e tudo aquilo que te machucou
agora te faz dar novos passos.

livra-te do teu passado
liberta-te do teu fardo
dá espaço ao presente
vive aquilo que sente.

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O mesmo vento gélido que fatia as maçãs do seu rosto numa manhã de outono se transforma na brisa que leva as cinzas daquilo que não mais lhe pertence. Evapora, transporta, dissipa. Espalha pelas ruas e pelos campos, adubando o solo com sua presença agora desapegada, torna-se parte do grande ritmo cacofônico orquestrado pelos minutos do dia. E a rotina corre e a música arranha na vitrola de brechó do amigo no último andar, arranha o disco de alarmes e buzinas e silêncio e sussurros, e se fecha os olhos vê que tudo é só parte de uma grande conversa, o monólogo de todos os sons que irradiam e luzes que gritam feito acordes e lampejos em veias de concreto, com seus transeuntes marcando o ritmo em passos acelerados, desviando do vagar alheio, atrasados para qualquer coisa pra chegar a qualquer lugar.

Até uma noite sem sono se metamorfoseia em manhã, manhã inundada em substância inflamável que incendeia e dissipa o azul e apaga estrelas e esconde luas. O mesmo azul se instala debaixo dos seus olhos, em suas roupas e em seus papéis, uma mancha anil indelével que esfria a sua cama e atormenta o sono. Mas logo é o mesmo azul de seu céu da infância, manchado por nuvens em formas de animais e deuses em suas carroças de luz água e ar. E seu remédio escorre no rosto por qualquer aperto em seu coração, um ser condenado a sentir e a sentir em dobro, o mártir daqueles que já não sentem mais nada, transbordando-se em suas lágrimas ingênuas de medo, de drama. A poesia que corre no concreto é apreciada pela mesma visão de girassóis dos campos de criança, correndo entre as hortas e subindo em árvores. O menino cresceu e agora entende seus olhos, suas mãos e um pouco de seu coração, ora aberto, ora apertado, marcado com os passos de sua vida tão breve entre estradas e bilhetes só de ida. Entende que seu caminho não tem volta, mas descobre que também pode seguir além de onde desfaz suas malas. Pode o dia nascer pela janela ou enquanto ruma a qualquer lugar. O importante é que esteja lá quando a combustão se inicia, fazendo com que tudo se movimente: estão fugindo ou estão voltando? Não importa. Estão indo em alguma direção, e isso basta.

E quando descobre um semelhante, entrega-se. Abramovic diz que é melhor não, mas apaixonar-se por outro que lhe reflete é inevitável, desde o dia em que a paixão foi limitada aos que conseguem sentir e sentir em dobro. E quem o faz logo transforma tudo em arte, a fala o gesto o corpo a tinta o pincel a tela. E esse ser que sente tanto do mundo é só mais um garoto criado na terra de montanhas e pinheiros, expulso com a missão de plantar dessas sementes que brotam em qualquer solo. Suas pragas são fortes e arrebentam o concreto e o asfalto, mas suas flores são raras e contrastam o cinza do céu e do chão, em cor de magenta em matiz. Seu sorriso saturado ilumina em gama, contagia modifica reluz em dentes tortos de juízo e inocência, convidando qualquer um a lhe dar o nome e a mão feito criança que brinca sem relutância com aqueles que aceitam entrar na roda.

E o pequeno ser segue, agora não tão pequeno, mas ainda cabe em sua cama. Segue desbravando os oceanos de seus lençóis e ateando fogo aos céus, na fé de que o mesmo acenda sua coragem de ver a manhã por fora da janela. Mas sem afogar ou torná-lo em cinzas, pois prefere voar e viajar por si só.

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