Archive for the ‘fatos reais’ Category

cíclico

E quando você me deixa, eu acabo caindo no mundo, eu bebo, eu choro, eu faço todo os clichês melodramáticos, eu fumo mais, ouço músicas estranhas, conheço gente nova, e então de novo eu bebo e eu lamento, eu reclamo, eu te xingo mil vezes, conto seus podres, às vezes até invento alguns, as pessoas riem, eu rio mas é de mentira, e no sétimo copo eu conto o seu lado bom, que é o lado que gosto de conhecer, gosto de fingir que ele é mais nítido, finjo que você não faz nada de errado, que você não está com outras pessoas, que é só o seu jeito de agora, que o errado sou eu, eu que forço tudo, eu que deveria me acostumar à essa versão nova de você, eu que ainda não entendo os relacionamentos contemporâneos, mesmo rodeado de amigos poligâmicos e abertos e livres e com todas as nomenclaturas possíveis para seus companheiros, e você, você só está se divertindo, eu não sou mais tão divertido assim também, talvez saiba manter uma conversa e criar novos universos com minhas táticas mas talvez o seu universo já te seja o bastante, e nessa epopéia eu me permito morrer um pouquinho mais, seja pelos pulmões, pelo fígado, pelos olhos ou pela cabeça, porque já não entendo meu coração, pouco a pouco o ceticismo me diz que é só um órgão a mais, aí eu começo a perder a graça mesmo, meus amigos já não querem ouvir toda a história e eu os entendo, então eu fico remoendo, a culpa é toda minha, eu sei, eu fiquei de te fazer tantas surpresas, eu fiquei te devendo o melhor de mim, você não tem culpa, a culpa é minha, a culpa é minha, acho que,  aí eu acordo, e a culpa é minha, mas, aí eu levanto, a culpa talvez não seja minha, aí eu me dedico ao trabalho, me distraio com meus estudos, minhas ideias, minhas pinturas e minhas fotos, pouco a pouco entendo de novo o coração, meus amigos querem saber e fazer parte das mirabolâncias, eu me alegro, duas semanas, eu volto a sair, três semanas, agora a culpa é sua mas eu não te culpo, um mês, tá tudo bem, tinha que ser assim, fizemos nosso melhor, um mês e pouco, já assisti tantos filmes sozinhos e descobri o prazer dos programas solitários ou com outra pessoa sem compromisso, troco ideias, troco o tempo, trocas justas, o ceticismo some, eu sinto o sol em libra de novo, como é bom ser libriano e entender a justiça das relações, como é bom conseguir transformar a dor que passou em poesia, eu volto a dançar, eu e meu melhor amigo de madrugada no telhado mais alto da cidade, não o mais alto, mas metaforicamente e momentaneamente o mais alto, eu rio, rio na cara de todos os problemas, gritamos para os carros, eu acordo no dia seguinte de ressaca, mas acordo rindo, existe vida sem você, consigo até digerir um livro de romance bobo e achar aquilo curioso, não tem problema em romantizar e dramatizar as questões do coração, só faz isso quem as entende a ponto de torná-las cafona sem medo, o amor e seus cafonismos fazem parte daquilo que nos faz humanos, eu me sinto humano agora, as coisas vão bem, sem mais montanhas russas ou expectativas, sem alarmes e sem surpresas, eu volto toda minha mania de controle para aquilo que realmente demanda minhas responsabilidades, eu arranjo um emprego novo, começo a fazer dinheiro e arranjar tempo para tornar meus sonhos estáveis e próximos das palmas das mãos, o ar etéreo se solidifica e eu vejo matérias, eu vejo rostos, eu vejo caminhos, lapidando os obstáculos de pedras brutas e transformando em joias, eu volto a ser quem eu queria ser, a culpa nunca foi minha, eu me perdoo.

E aí você me vê feliz, se vê naquele meu lugar de antes, não fazendo parte disso tudo, não como se exigisse algo, mas uma vontade de me fazer rir ou de se contagiar pelos meus risos, e você perdoa meus surtos, minha necessidade intensa de viver, entre outras coisas que você não compreendeu, sente falta da minha energia, você tenta compreender, sente falta do jeito que lido com qualquer questão de forma prática, você compreende, você me vê indo longe, um medo de ser longe demais, você me chama, com todo seu carinho e seu afeto, você me chama, com toda sua virtude de ter conquistado um espaço onde eu arranjo tempo e me sinto responsável de cuidar, você me chama, eu respondo, nós nos vemos, e por que ficamos todo esse tempo sem nos ver, e é tão bom sentir a sua mão na minha de novo, você me chama, me conta qualquer coisa e eu gargalho, você me chama, me pede ajuda só pra me sentir importante em qualquer questão, você me chama, depois você não me chama, eu te chamo, você demora, eu te chamo, você vai embora, ás vezes até se despede como se fosse voltar, mas você não volta, eu esqueço o porquê daquilo tudo, começo a me achar bobo, que bobo eu, de novo, invertendo papéis, antes eu e você, agora dois vilões, uma pena, a gente se gosta tanto, a gente se gosta tanto assim, pergunto, não sei se, aí eu esqueço das suas risadas, e você esquece de lembrar da minha, você vai embora, ás vezes se despede, de qualquer forma eu fico, eu fico e eu volto pro início.

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Entre qualquer explicação deve haver um pouco de ciência e misticismo.
Não como se fosse um equilíbrio entre astronomia e astrologia, meio que acho instigante essa treta, mas sim como um meio termo, um ponto exato onde as duas ali se separam, tipo Abramóvic e Ulay na Muralha da China. É fácil falar que tudo anda bonito porque é ano de Sol, mas às vezes eu queria um pouco mais de dados e números e explicações e menos teorias, queria que alguém que visse a situação no mesmo nível que eu me olhasse e “gente, como é que pode” e ficássemos noites e noites num quarto com luminária, uma parede cheia de recortes e anotações, fotos de pessoas e gravações, linhas que interligam fatos até que: ah, agora sim, tudo faz sentido. E no fim, mesmo sabendo da coincidência bem explanada, ficar com aquilo de “mas é ano de Sol, também”. Essa dualidade me embala, mas me questiona. Como, por exemplo, você explicaria que pessoas longínquas que você conheceu na época em que a internet era só aos fins de semana (e mais parecia uma deep web de myspaces e fotologs) se tornariam mais importantes que alguns amigos e amores que juravam amores até anteontem num post cafona de Instagram? Ou mais essa: você conhecer alguém em um emprego antigo, de repente os dois são demitidos pela mesma causa (a escola não gostava de descobrir que seus funcionários eram gays) e perdem o contato totalmente e, anos depois, vocês estão trabalhando juntos, num lugar bacana, e descobre que a pessoa simplesmente mora com uma das amigas do seu melhor amigo? Hahahaha, mundo pequeno é o escambal, eu quero dados investigativos sobre ações, direções e datas, mas também uma análise astral e também um budista me explicando sobre karmas & encontros & desencontros, como é que pode? Melhor eu parar aqui. Ou deveria contar do dia em que uma amiga fazia sua própria terapia alternativa de gritar debaixo d’água no mar e eu sonho (posso jurar que respectivamente na hora de seu ato aquático) que a mesma queria cantar uma música e só conseguia debaixo d’água, numa piscina? Explica-me ou devoro-me.

Impreterível, recebia essa palavra no meio de emails de cobranças e não sabia seu significado, melhor que Maktub, sorry, Paulo Coelho. Eu só sei que nada sei mas também sei que queria saber, alguém me diz a lógica das conexões, dos tinha-que-ser? Nem entro no assunto do coração, quantas vezes tive certeza que era aquele ou aquela e não é que era mas depois não foi mais, mas depois continuou surgindo, seja nos sonhos ou no horário de pico? Como se livrar do destino e do acaso sem que a vida perca a graça? Situações que impreterivelmente tinham que acontecer. Fica chato pensar que tem um ser ali escrevendo incansavelmente a consequência das suas decisões. O que a ciência diz das conexões que criamos de forma líquida, essas que não sabemos explicar, dos santos que não se batem ou abençoam juntos? Será que alguns de nós, que instigam pelos acasos impreteríveis, acabamos por usar mais de 10% do cérebro e desenvolvemos algum tipo de sonar, igual os golfinhos? Olha, eu te conheço de algum lugar, não me lembrarei exatamente de onde porque só os golfinhos usam 20% do cérebro, mas sei que em algum dia da vida, com uns 15%, eu usei meu sonar em você e olha só, você aqui de novo.  Acho que a gente acaba trabalhando mais com a intuição. Intuição, sempre. Acho que não tá bom, então não tá mesmo. Posso estar enganado, sempre me pego errando, mas sinto que não. Mas a gente se trai fácil. E, felizmente, nessas traições por vezes a intuição nos perdoa. Ou admite que tava errada, também. Mas ela sempre tem 20% a mais de certeza.

Apesar do choque constante, estar sempre surpreso é o que dá mais gosto. Daquilo que chamam de coincidência, meant to be, que seja, é sempre bom poder ser pego desprevenido num acaso, ora raro, ora tão frequente. Entrar no mesmo vagão, falar juntos a mesma frase, dejavús bons e os ruins também, há uma lógica sem nexo que tanto batuco mas na real gosto de saber que talvez jamais saberei explicar. Talvez, numa visão mais otimista, não estejam escrevendo nada sobre ti, mas sim que você mesmo esteja criando um roteiro de filme, com direito à trilha sonora (você tava com a música na cabeça e de repente alguém cantarola do seu lado), efeitos especiais (aquele dia que você tava cabisbaixo e de repente um dilúvio, você acaba rindo da desgraça), personagens misteriosos (e aquele senhor perto da Marechal que praticamente leu sua mente e viu que sim, você queria muito comprar uma régua mágica há meses?) e também vilões que acabam se dando mal (karma é uma vadia megera, não há perdão nem escape, agente da justiça que não justifica seus atos). Aquele teu sorriso besta que você não segurou enquanto andava vai ser visto por alguém que vai lembrar de algo que também vai gerar um sorriso besta que não deu pra segurar enquanto te via, talvez ela esperou aquilo o dia todo. E, mesmo com a miopia me forçando e exigindo mais graus, minha visão de mundo só aumenta, me diz a direção e mesmo quando me perco ignorando o Google Maps, acabo encontrando um brechó, uma moeda no chão ou no mínimo alguém pra dizer a direção certa.

Entre o cosmos e o calculus, fico no meio termo, gosto de falar que isso é normal mas também gosto de delirar com o que pode ser além, de imaginar situações, me apaixonar perdidamente por dois segundos e fingir que estou na fossa só porque ouvir Billie Holliday é bom. Danço em casa com a vassoura e finjo que o Youtube é uma vitrola, enquanto acredito que as formigas andam pela casa não porque ela está suja, mas porque tudo tem estado doce. Nossas cinzas, as conversas que ficam na sala e os jantares de madrugada improvisados na cozinha, esses eventos que sempre deixam um açúcar onipresente, rara substância, pobres artrópodes. Já li sobre as Supercordas, sobre ondas gravitacionais, também tenho lido sobre budismo e até caí naquele livro do segredo da Ana Maria Braga, mas a real, a grande real, é que o mistério é um deleite necessário, um frenesi bom, te cutuca e te irrita, mas.

Não quero explicar minha felicidade ou afogar minha tristeza, quero que cada jorro de riso e cada jarra de lágrima se propaguem e se esvaziem, todo sentimento é impreterível de ser sentido. Meus tropeços, eu sempre ando olhando pra cima, meus tropeços, necessário cair, às vezes. Mas também é necessário andar olhando pra cima, seja pra evitar coisas que caem do céu ou só pra identificar as nuvens, nimbostratus, cumulus. E eu ando tão cheio de mim, num bom sentido, perdi o medo do tarô, sai o Diabo e eu dou aquele sustinho mas na real eu já sei do que se trata, a causa já está em andamento, a cura chega logo. É bom discutir, mas também é bom deixar que as pessoas achem que estão certas. Mesmo quando você sabe que está, também.

Não luto mais contra a insônia. Ninguém morreu por falta de sono. Se morreu, não pesquisei. É relativo, dizem que perdemos dias de vida por falta de descanso mas também estou aproveitando vivo essas horas da madrugada. Que matemática falida essa da biologia, sometimes. Uma moça canta, só se vence o perigo correndo perigo, concordo tanto. Imagina deixar de falar uma cafonice de amor pra alguém com medo da pessoa descobrir que você tem um coração? Imagina não levantar da cama porque mil coisas ruins podem acontecer? E não se dar o benefício da impulsividade louca de pegar uma carona de última hora pro Rio de Janeiro, por que rio, porque é o Rio, porque sim? Que tristeza sobreviver de previsão do tempo, de estatística, de absolutas certezas. É bom também, mas vai que o dia tá mais em Peixes e você quer ser um pouquinho mais nefelibático? Não corro do acaso, me entrego, meio que espero mas ainda me surpreendo.

Imagina o que eu não sonharia acordado se eu tivesse dormido aquela noite?

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Onde as manhãs cinzentas acompanham um ritmo cada vez mais automático dos horários de pico que nunca terminam, de olheiras bocejos e mau hálito daqueles que já não lembram o que é dar ou receber bons dias, de tardes melancólicas que mais parecem uma cianotipia mal revelada, de ruas decoradas com luzes e papel se misturando com cartazes desgastados da última campanha política, onde é mais fácil fabricar sacos de lixo estampados com folhas verdes ao invés de conscientizar o descarte, onde cada um aponta grosseiramente uma direção e é mais fácil confiar em mapas virtuais, onde o concreto pintado de cal barata cada vez menos reflete luz e cada vez mais barra horizontes.

Onde as notícias são simples manchetes e os boatos são cada vez mais verídicos e tudo é descartável, o amor, os pratos, as amizades, os talheres. Os escritores são cada vez mais jovens, adaptando uma mente vazia a valores comerciais de romancezinhos escrotos, esperando que um dia entrem nas grandes livrarias dos shoppings e vejam suas capas de alguma fotografia clichê escancaradas em um stand temporário. os jovens cada vez mais fumantes e alcoólatras, cada vez mais suicidas, cada vez mais pessimistas. Onde os contraculturizados são chamados de reaças cults esnobes e aqueles que seguem as tendências são hipsters, rótulos inversos e confusos para quem nem se deve rotular, de clubes noturnos imitando o life style de jovens londrinos porcos e bêbados, os neons nem piscam mais, ofuscados por leds de carros que tocam o último hit do pop-lixeira, onde ou se tem argumento para toda discussão ou é chamado de ignorante, onde pessoas oprimidas se tornam opressoras tentando levar consciência, onde o diálogo é um monólogo e tenha saco para ouvir ou não serás digno de meu tão precioso tempo em que prefiro gastar rolando páginas e páginas de conteúdo superficial na frente de um computador, onde relacionamentos são baseados em combinações de gostos e matching e toda forma de amor inesperada e espontânea foi extinta, pois todos viramos um grande cardápio humano daqueles que preferem evitar conhecer alguém que prefira arte ao futebol.

Onde trabalhar é por sobrevivência, onde conhecer ou esbarrar com algo novo é inconveniência, onde tudo é longe e todo lugar tem as mesmas pessoas, onde ser interessante é raridade, onde putas mendigos ladrões são figurantes que rasgaram os contratos, onde fama popularidade reconhecimento vêm antes de ao menos ter algo pelo quê ser destacado, onde tudo se distorce, onde arte é aquilo que está em galerias com suas donas peruas luizas-vuittonas e felicidade é um cartão preto pronto para ser estourado na próxima coleção.

De arranha-céus e conjuntos habitacionais padronizados onde cercas brancas são cercas elétricas, entre parques improvisados no meio urbano com Niemeyers e Bo Bardis, elevações européias lado a lado de restaurantes americanos, construções tombadas que tombam pedaços desperdiçados, onde é necessário ocupar ilegalmente antes que tais espaços em vácuo legalmente sejam demolidos para um mais novo tampador de céu. Ah, e o céu tem cor de baunilha-tóxica, uma mistura de rosas azuis amarelos de óxidos monóxidos dióxidos.

De quando o ruim se torna o normal e o bom já é utópico, ignorando previsões de Ginsberg, Hilda Hilst e Caio F. sobre o caos moderno, o mesmo caos que resulta em criação mas tem levado mais tempo que o normal, quando os acasos são meros acasos e o destino é apenas um papinho místico de neohippie que fumou desde muito cedo, de quando a liberdade é tão radical que se ignoram princípios e ser contra algo que até leve à ruína de alguém é papo de censurador que não preza o livre arbítrio da humanidade, de quando o blasé is the new black, de quando o respeito se tornou coisa de quem ainda bota fé em morais e bons costumes, de quando qualquer ideia ou te torna um conservador de direita ou um esquerdonazista, de quando bom senso e senso comum são coisas distintas (há tempos) e de quando se tornou mais seguro expressar opiniões em silêncio para não ser vítima de uma longa discussão de quem tem os melhores argumentos para mudar suas ideias.

De quando a vida foi mais bem aproveitada, de onde lugares eram para se conhecer e não por trajeto obrigatório, de pessoas menos mecanizadas ou que ao menos lubrificassem suas engrenagens com mais frequência, de como é cada vez mais difícil enxergar com otimismo um novo dia ao invés de querer dormir até que a humanidade acorde.

c h a o s

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Eu tenho asas dentro de mim. Em minhas entranhas elas descansam como grandes pétalas de uma flor, encolhidas à espera do sol. Elas abraçam minhas costelas e a cada noite que perco o sono suspirando para as paredes eu as sinto, como num impulso elétrico, como o toque de alguém nas suas costas.

Até certo momento da minha vida eu não sabia da existência desses órgãos extras em meu corpo. E agora, diagnosticado com tal situação bizarra, sempre me pego tentando entender porque elas decidiram crescer para dentro, envolvendo meus pulmões, ao invés de pra fora, elevando todo meu corpo aos ares. Já é estranho que um ser humano desenvolva asas, agora asas que cresceram ao contrário?

Nunca tinham me causado desconforto até então. Até que eu descobrisse que eu não fui o único que desenvolveu tal anomalia genética, meio homem, meio pássaro. A primeira pessoa que conheci tinha asas, mas sempre arrancava suas penas para que jamais pudessem sustentá-la. Quando viu que as penas cresciam de volta no dia seguinte, deixou seu instinto aflorar-se. Hoje ela me encontra toda semana, pairando na minha varanda com grandes asas azuis. Por um bom tempo eu acreditei que fosse meu anjo, mas o tempo todo ela me dizia que nós somos guardiões de quem escolhemos ser, porém os únicos que podemos proteger de verdade e fazer achar seus caminhos somos nós mesmos. E quando foi seu tempo, decidiu que partiria para a viagem de sua vida.

Nesse meio tempo, antes de ser sufocado por meu próprio artifício de liberdade, me deparei com outra pessoa que sofrera de um mal parecido. Quando a conheci, tinha pequenas asas de pardal, fracas, não levantariam grandes voos. Mas sabendo que seu problema não era tão grande assim, se dispôs a me ajudar. Não conseguimos nenhum avanço em fazer com que minhas asas se desdobrassem para fora de mim, porém com ela aprendi a controlar tais suspiros que causariam o aperto em meus pulmões e o desconforto de penas em atrito com meus músculos. Quando consegui controlá-las por dentro, percebi que as asas de pardal dela já não eram pequenas e fracas. Haviam se revelado grandes asas de um falcão, que sustentaria até duas pessoas. Mas essa pessoa sempre preferiu seguir seu percurso sozinha. Uma vez me disse que tudo estaria perfeito agora, pois poderia carregar a si mesma e também sua solidão, que antes pesava em suas costas.

Me deparei com mais pessoas-pássaros (alguns não gostavam de ser chamados de anjos, apesar de cumprirem tal papel), das mais diferentes asas, tamanhos, cores e experiências de voo. Algumas já nasceram para as nuvens, outras demoraram a abraçar o céu e aceitar o fardo de sentir o vento soprar direto nas penas e no rosto. Mas nenhuma conseguia me ajudar a fazer minhas asas se soltarem para  fora. Os suspiros ficaram mais frequentes e manter a concentração para que as asas não apertassem meus pulmões era uma tarefa cada vez mais difícil. Eu, tolo, achei que evitando o contato com o mundo me faria bem, então fiz minha casa, meu quarto, meus pensamentos e suspiros de gaiola.

Nada poderia ser pior que isso. Eu era um menino-pássaro com asas interiores preso em uma gaiola imaginária. Aqueles que não acreditavam em mim só pioravam tudo. Então numa tarde dessas saí pela rua, tossindo e com crises de falta de ar, colando cartazes nos postes com um desenho de um menino numa gaiola com uma silhueta de asas imitando o formato de pulmões. Esse seria meu último ato de socorro. Fiquei dias esperando que alguém captasse a mensagem e seguisse o endereço. E fico feliz de que anjos realmente tenham capacidades incríveis de solidariedade com seus semelhantes. Pois alguém um dia bateu na minha porta.

Uma garota com duas pequenas malas, uma em cada lado do corpo. Uma manta enrolada por entre as costas e os peitos, feito capa. De início achei que fosse umaandarilha,mas quando a convidei para sentar entendi a mensagem. Despiu-se da capa, revelando asas machucadas, quase sem penas, cheias de curativos que já não serviam de nada. Uma parecia mais danificada que a outra, pois nem se movimentava mais quando ela respirava. Contou-me sua história, disse que um dia quis voar além do que sua liberdade a instigava, mais do que sua capacidade permitia. Queria ir pra longe do céu cinza, queria conhecer lugares onde nenhum ser humano, com ou sem asas, jamais tinha visto. Mas foi só levantar um simples voo que perdeu a sincronia do vento e caiu de uma altura gigantesca. Suas asas, em instinto protetor, aliviaram a queda, mas nunca mais se recuperaram.

Eu a aceitei em casa. Trocávamos experiências. Eu contava sobre tudo que conhecera dos outros e ela me contou tudo que vivenciara voando, de como usava tal capacidade para ver como seus problemas eram tão minúsculos quanto os prédios visto de cima. Suas asas podiam não voar mais, mas sentia que o farfalhar das penas me confortava. E minha asfixia penulmonar era menos frequente. Vivemos bem, até que um dia ela resolveu andar por aí. Ficou fora alguns dias, o suficiente para que meus suspiros voltassem. Minha casa só era gaiola quando eu estava sozinho, quando a compartilhava com outros as grades passavam a ser abertas e enfeitadas com samambaias, trepadeiras e penduricalhos. A crise se agravou e eu subi até o mais alto quarto da grande gaiola. Era um quarto fechado há tempos, onde eu podia observar a cidade toda do alto, quase como se voasse.
Ao me deparar com aquela vista pela pequena janela que dava para um terraço estreito, minha mente se clareou. Eu sabia exatamente o que fazer, apesar de estar atordoado com as dores que as asas interiores estavam causando. Pulei a janela e quando me preparei para me jogar, um grito ecoou pela porta do quarto -Não! –  A última coisa que vi com meus olhos de menino foi a garota das asas quebradas com um olhar de desespero ao me ver caindo do mais alto quarto da mais alta gaiola da mais alta cidade.

O vento cortava todo meu corpo, ou meu corpo cortava o vento? Me infiltrava cada vez mais nos bolsões de ar, o chão seria o fim ou seria o chão que me elevaria a algum projeto de céu após a morte? Eram as únicas dúvidas na minha cabeça. Dizem que quando morremos o tempo passa mais devagar para podermos gravar todas as memórias para além da vida. Então, em frações de segundos que se transformaram em poucos minutos, eu vi a queda da garota invadindo a minha queda, inútil, pois suas asas não funcionariam. Nenhum dos dois seria salvo. Então o tempo voltou ao normal, eu vi suas asas tentando esboçar algum movimento, mas logo ela se entregara ao seu destino final. Então, num impulso que me veio de dentro dos pulmões, expirei todo o ar que pude e senti minha pele rasgando, sangue, penas, cortes, asas. Duas grandes asas cinzas manchadas se espreguiçaram e logo se mostraram fortes para carregar a mim e mais alguém que merecia os céus, não o chão.

Pousamos de volta no quarto mais alto. Caímos ofegantes, eu com a visão meio embaçada e uma dor terrível pelos cortes nas costas. Ela, já recuperada, me olhava com orgulho. Eu precisei te dar um motivo para que você as libertasse, você precisou de um motivo para que eu lembrasse para quê eu tinha as minhas, disse, balançando asas em tons claros de palha ao salmão. Ajudamos um ao outro a descer as escadas e descansamos do episódio.

No dia seguinte, vi que ela estava de partida. Mas e suas malas, pergunto. Eu só vou aprender a voar de novo, responde. Ficarei aqui até achar meu propósito, me diz. Nisso, soube que minha gaiola não seria mais uma prisão, pois minhas janelas sempre estavariam abertas. Os que conheci pelo caminho viriam me saudar e conhecer meu novo eu, agora menino-pássaro com asas cinzentas, mas que brilhavam à luz do sol.

O meu grande erro foi achar que minha liberdade não existia porque ela só predominava dentro de mim.
Meus suspiros eram na verdade a vontade de fazê-la abrir suas asas, mas com a angústia de não poder sustentar meu peso e levantar voo. O dia que consegui entender que a minha prisão era interior, aceitei minhas gaiolas como eram e me deixei voar pelos ares, vendo tudo de cima, sabendo que o chão só me serve para descansar.

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praga

Venho carregando pensamentos há meses. Há tanto a se pensar. Há tanto a não se pensar. A grande coisa é que tudo isso vinha preenchendo minha cabeça como uma névoa, uma névoa espessa que invade espaços que eu antes preferia manter intocados. Ou talvez não fosse névoa, mas algo sólido, pulsante, quase que mais presente que os próprios pensamentos.

Eu carrego em mim toda a praga do mundo. A praga que todos preferem exterminar de seus jardins lavouras garagens esgotos pomares oceanos florestas. Uma praga que pouco precisa para se alastrar crescer dominar preencher. Ela só pede pelo dom da existência – e o fato de eu acreditar nela já se faz suficiente. Ela me suga, tira meus suspiros, aumenta minha paranóia, me faz exercitar os olhos para que se mantenham abertos nas madrugadas de ócio e maços de cigarro. Nada supre sua vontade, nem paciência, nem paz, nem calmantes, nem calma.

Procurei saber mais sobre ela. Dias, semanas e meses de reflexão. O que seria essa praga? Primeiramente, o que é uma praga, afinal? A própria palavra nos faz estalar a língua e os lábios para dentro. Como se proferíssemos uma maldição. Em primeiro instante, se você pesquisar pelo computador, após ignorar trilhões de anúncios de viagens para a capital da República Tcheca achará um significado ortográfico. Maldição. Fatalidade. Azar. Desventura. E também achará várias plantas e insetos chamados por esse nome por simplesmente se proliferarem de maneira acelerada como parasitas. Infortúnios da vida. O câncer dos jardins. A dor de cabeça das casas de madeira. O mal que desejamos sem pensar. Praga.

Sabendo que eu sofria de Praga Mental, resolvi me tratar. Ignorei-a, procurei podá-la e amenizar seus efeitos já que a solução para sua extinção ainda não me era clara. Assim andei bem da cabeça por uns dias. Me enfiei em casa, cortei contatos, me preocupei mais comigo. E como era boa a sensação de só se preocupar consigo mesmo! Nem meus próprios demônios me perturbavam mais.

Como disse, estava são e feliz por alguns dias. Por alguns dias. No dia seguinte desses alguns dias, algo voltou a me perturbar. Não, não era a praga mental em si. Era a falta dela. A sensação de que ela estava se esvaindo e aqueles espaços vazios do meu cérebro estavam voltando a se preencher com outras coisas além de sua névoa galhos insetos. Nem as borboletas do meu estômago batiam suas asas mais. Meu sangue corria em um ritmo harmônico como se estivesse ouvindo a melodia mais bela do mais requintado piano sendo tocado pelos dedos do melhor pianista do cosmo. Mas eu não gosto de música clássica. Talvez eu goste um pouco. Mas imagina o tempo todo?

Abri minha cabeça. Não literalmente, mas vamos fingir que foi tipo uma cirurgia, sabe aquela que abrem um buraco no crânio pra libertar a mente? É, tipo isso, mas sem furadeiras. Lá dentro ela se escondia. A pequena névoa se revelou em galhinhos secos de um corpo verde-morto. Pequenas pétalas que um dia foram roxas e amarelas faziam seu próprio funeral. Os espaços vazios estavam todos lá, agora preenchidos por caixas e caixas de passado, rascunhos de um presente mal escrito e post-its de incertezas futuras espalhados por todo o canto. Minha praga não queria dominar minha cabeça, não queria parasitar-se em mim. E mesmo se quisesse, que mal há? A natureza tem toda uma trilha incerta de um ciclo perfeito. Algumas coisas são pra ser desse jeito e fim. É a necessidade de crescer, de tomar partido das coisas, de preencher de verde campos e desertos vazios, de espirrar freneticamente tintas de todas as cores por uma parede cinza.

Estrela-comum, Caruru, Capim-colchão, Caniço Perene, Aveia Selvagem e todas as outras ervas daninhas. O quê e quem um dia disse que as pragas devem ser eliminadas? Talvez controladas, entrando em um acordo de ambas as partes. Mas até a própria raça humana se reproduz sabe-se lá quantas vezes em um dia. Todos nós estamos aqui porque conseguimos nos proliferar como as pragas que somos. Todos nós temos o direito de ser o que a natureza nos pede pra ser e fazer unicamente aquilo que somos liberados sem nenhuma restrição: existir.

Reguei seu corpo morto. Fechei minha cabeça novamente. E esperei pelo resultado.

No dia seguinte minha insônia voltou. Com a insônia, minha percepção do mundo ficou mais aguçada. Refleti mais sobre tudo. Sobre o que vivo. Retomei os rascunhos do meu presente, tirei tudo que insistia em prever do futuro. Eu sei que farei meu melhor independente da situação que estiver. Ela havia renascido. Apesar do sono, eu me sentia descansado. Enxergava mais claramente os propósitos. Me aceitei como sou e aceitei as fortunas e infortúnios como meras provas de que nada nos é entregue de forma perfeita. Nós, como boas pragas que somos, sabemos nos esgueirar pelas rachaduras do concreto, nos semear sozinhos de forma assexuada pelos ventos. Nós sempre damos um jeitinho.

Começou como uma pequena planta, ergueu seus braços, floresceu em folhas e pequenas flores violetas e amarelas. Quando morriam, secavam e desprendiam pequenas sementes e de lá nasciam mais brotos. Quando se tornou grande o bastante, saiu pela minha boca, ouvidos e mãos. Se proliferou pelos poucos metros quadrados, mas dessa vez não barrou janelas e portas. Ao contrário. Era destruidora e ao mesmo tempo sutil, tanto que as arrebentou e abriu buracos pelas paredes – só para iluminar melhor a casa. Pobres dos meus amigos que não se deixaram se infectar por ela. Os que colheram suas flores e levaram suas sementes até hoje me visitam para trocarmos fertilizantes e até mesmo para podarmos umas dos outros. E é bonito, porque cada um tem uma praga diferente. Outro dia ganhei até uma mariposa de presente. Eu não gosto muito dos gafanhotos porque quem os cultiva acaba prejudicando minhas folhas e flores. Mas recebo-os bem também, apesar de simpatizar melhor com roseiras selvagens e lagartas fluorescentes.

Minha praga? Ela é a própria vida, o presente, a morte, o amanhecer, as olheiras, a solidão benéfica. Ela é o caos que necessito para criar, o choro para aliviar, a sensibilidade das coisas que ninguém para pra ver. Ela é a melhor doença que contraí em toda a vida.

E eu espero nunca mais me livrar dela.

 

 

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Deus Urbano

Procuro um espaço livre para escrever em meio o papel da conta com seus números impressos em tinta a laser.
O ônibus vai a 80 por hora, me jogando de assento a assento, num ritmo cantado pelo tilintar de uma lata de refrigerante.
Me pergunto se quando chegar em casa vou entender os garranchos deste texto, mas caso não entenda, não há problema. O vômito verbal está concretizado, junto ao vômito dos mendigos da Penha e dos olhares de ânsia rotineira dos passageiros no ônibus ao lado.

Certa vez me aconselharam a escrever menos sobre amor. A partir desse dia passei a buscar a fundo as trevas de tudo. Em palavras mais bonitas, buscar a essência. Pois tudo que é luz precisou um dia ser escuridão.

Diante dos anos bem vividos venho deixado minhas poças de lembranças por essas ruas esburacadas. Essa cidade te deixa louco.
Eu definiria minha vida aqui como um beco mal iluminado com algum neon que pisca até as 5:55 da manhã, sinalizando que a vida só parou para quem dorme à noite.
As trevas disso tudo estão mesmo na luz do dia. Nos Berriners engravatados, nos jovens da Augusta, nos poodles de Higienópolis. A luz dessa cidade está nos botecos de luz amarela de 60w, nos drinks dos puteiros, nos dentes dos pedreiros e nos espelhos de nossas casas.

Hoje eu sei que a cidade não para porque precisa mostrar para pessoas como eu que a angústia que bate por volta de 1 hora e meia antes de pegar no sono não é solitária. Essa angústia é iluminada por lâmpadas baratas, faróis quebrados, por uma lua rara e estrelas tímidas.
Pois aqui todos reclamam das inconveniências. Da rotina. Do trânsito. Reclamam mas não ligam de pagar outros para enfrentar tudo por eles. Não ligam de erguer templos colossais enquanto os que os frequentam por pouco não passam fome. Tudo para buscar Deus.

Mas Deus não está nas igrejas. Deus está na bala de um revólver. Na calcinha das putas. Num cigarro amassado. Num choro qualquer.

Deus está nas ruas.

Essa cidade não pertence aos engravatados. Nem aos poodles com lacinhos. Essa cidade é de quem dorme no ônibus até que chegue em casa. Das moças maltrapilhas. Dos que trabalham nos 24 horas. Dos que contam e pedem moedas.
Pois não se conhece a cidade por trás de vidros blindados ou pela vista das coberturas. Se conhece andando pelos becos, viadutos. Se conhece nos 2 minutos para pegar o último trem.

Se conhece por uma varanda de um aluguel absurdo, ao som de sirenes e buzinas.
Sirenes, buzinas, mendigos, pessoas.
Pessoas, luzes e sons que percorrem a noite toda.

Essa cidade é de quem vive por ela. Que enfrenta seus perigos. De quem se torna parte do perigo.

Essa cidade é minha.
E que esse Deus urbano jamais deixe que os neons parem de piscar.

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É, não foi lá aquelas coisas.
Passou. Acabou mais rápido do que parecia. Jurava que ia rolar todo um processo de caimento de ficha, que demorasse a engolir tudo. Mas não. Foi rápido. Não digo que foi fácil. Foi como engolir um cacto. Uma tocha. Um cigarro aceso.

Construí toda uma grande estrutura pra receber meus vinte anos. Porque vinte anos é o alívio do anseio de tudo que demorou a acontecer. Agora a vida deixa de ser tictac, pingo de chuva ou brisa passageira. Daqui pra frente são só sons de alarmes, tempestades e furacões. E todos esses alarmes, unidos de gritos, cobranças e despedidas, fizeram um conjunto destruidor-criador junto das tempestades e dos ventos violentos. Primeiro, arrancou meus telhados, para que eu já tivesse de tomar as medidas de imediato, pois os alarmes soavam mais alto e eu já sentia o vento e a chuva cortando e resfriando meu rosto casa vida. E antes mesmo de pensar em consertar o estrago, logo já não havia mais paredes, janelas, portas ou qualquer estrutura. Me arrancaram portas e janelas para que eu não tivesse a sensação de fuga. Fugiu-me a possibilidade de fugir. Pois já estava lá. Foragido.

Eu pensei em recorrer às pessoas para que me abrigassem ou que me escondessem de impiedosos elementos. Mas as pessoas estão preocupadas em nascer e em morrer. Não têm tempo para se preocupar com tamanho incômodo. Então lembrei daqueles que – se fosse dizer isso com vista grossa – me devem favores. Mas aquilo que eu fiz? Já esqueceram. Nem se lembravam. Na hora era crucial, vital, de importância extrema. Hoje, já foi. Igual as portas e janelas. Foram.

Então, com o desespero tomando conta da cabeça, me ajoelhei e supliquei que alguém tomasse conta de mim. Como todos dizem, eu só tenho vinte anos. Mas quando eu digo que não sei me cuidar, dizem que eu já tenho vinte anos. Que é hora de aprender. Fiquei velho. Meus amigos, alguns também. Outros estão ficando e tentam usufruir dos últimos toques do alarme. Mas eu já não tenho amigos. Novos ou velhos, acho que acabei soltando a mão de vocês em alguma dessas ruas iluminadas por luzes amarelas. Mas, é que já não lembro bem, posso afirmar com uma certeza quase que absoluta que foram eles que se soltaram. Pois eu me lembro bem de quem eu sou ou costumava ser. Eu fazia tudo pelos outros. Eu admirava a lealdade, a confiança, o amor entre as pessoas. E os praticava como uma religião. Mas nosso mundo ficou tão escuro e tão podre que hoje em dia até as pessoas que reclamavam da falta de amor acabam por matá-lo quando descobrem que o tinham. Que o tinham o tempo todo.

Mas isso foi quando eu não tinha vinte anos. Acredito que ao completar duas décadas, você já passou pelas etapas básicas de adaptação ao mundo. Na verdade, não acredito. Ninguém nunca vai se adaptar ao mundo. Mas enfim, você já conheceu bastante coisa. Já sabe se virar, mesmo que seja mais ou menos. E eu vi por essas andanças o quanto eu tive de me livrar de bagagem antiga para poder carregar as coisas novas que encontro no caminho. Eu sei que aquela caneca trincada era especial pra mim, mas eu ainda preciso de algo pra usar de copo. Assim como eu sei que disse e ouvi dos outros o quão eternas as coisas seriam, os planos futuros para que no fim não tivesse feito nada e todo aquele papo era passageiro e a eternidade durou menos que a validade do pão de forma. Dali dois meses as coisas mudavam e as pessoas também. E eu.

Mas me dói acreditar. Eu me recuso. Eu ainda acredito na humanidade, me restou um tantinho de fé. Essa fé que colhi de sorrisos que me apareceram nos piores dias. E é por isso que eu não me impeço de mudar, mas também não me impeço de ir contra a mudança. Sou salmão que sobe a correnteza. Chuva que aparece fora de previsão. Vento que dança com lençóis de alguma infância perdida.
E é baseado nessa fé que vou levar meus vinte anos pra frente. Pra frente assim, sem rumo definido até agora, mas pra frente. Não necessariamente ao Norte, pode ser pros lados ou pra trás, mas que não regrida. Porque não tem volta. Minhas escolhas ainda serão feitas pelo impulso, mas agora com consciência do que podem me causar. É dessa fé que vou tirar forças pra buscar alguém que me prove que toda essa coisa podre não atingiu todas as pessoas. Que ainda existem os que enxergam a vida feito arte, os apaixonados inconsequentes e os amigos leais. Sei que a vida tem me mostrado que essas raças estão se extinguindo, mas quem dessas pessoas vai me convencer de que é impossível encontrar um desses perdido num pub da Irlanda, nas florestas do Camboja ou em alguma praia australiana?

Ninguém.

Segui meu rumo de mártir até hoje. Me entreguei à toda chance, à todas as pessoas, à tudo. Em tudo que faço, dei o meu melhor e tentei me superar. Mas não foi o bastante. Não foi sufil. Me respondem com palavras, mas mentiras também são feitas de palavras. Eu quero gestos, surpresas, acasos destinados, profecias de maktub ou os Beatles cantando Let It Be. Não quero mais pessoas. Quero humanos. Humanos que só ganham esse título pois sabem como tratar os outros com amor, mesmo quando a real natureza instintiva os faria seres indiferentes à qualquer necessidade que fuja das básicas e de sobrevivência. Amar é opção. É esforço. É troca. É saber retribuir da melhor forma que você consiga, seja ela mínima ou grandiosa. Eu preciso ter certeza de que ainda há humanos no mundo. Eu preciso ter certeza de que ainda sou humano.

Mas, por enquanto, todos se vão feito cinzas de cigarro levadas pelo vento. Eu me entrego – mas não me despedaço – abro os braços e vou atrás de mais alarmes e tempestades.

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