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cambaleio

Cambaleio. O ano termina em sete. É um clichê gritante esses dias chuvosos. Cambaleio pela casa, devia colocar óculos, mas admiro tudo em blur. Lavo a cara, olho o reflexo. Eu dormi quantos dias? Ouço uma música, embalado em transcendência sonora, o dom da audição transformando instinto em apreciação. Sonolento, cambaleio. Ao invés de pensar no atraso, reflito questões importantíssimas. Diz que o humano é o único ser que produz arte, usam a racionalidade como habeas corpus do argumento, excluíram até o pobre elefante adestrado do grupo dos Miró Elephantidae. Mas já parou pra pensar de onde vem tanta inspiração? A simetria dos cristais e a assimetria dos troncos, a temperatura do solo e a batida harmônica da chuva, a composição curvilínea das montanhas e a orquestra marítima. Eu não vejo o mar desde outubro, noto no banho, e de repente me pergunto o porquê de não ter a opção de água salgada no chuveiro. O sono, o sono, o sono, alguém já acordou antes de mim nessa casa, percebo rastros de humanidade, cheiro de cigarro, barulhos de cozinha, é tudo uma dança, uma coreografia, tilintar de copos e facas, seria tudo música?

Cambaleio, agora nas escadas. Me visto, me permito ver o horário. Ainda em tempo, quantas vezes preciso me negar a virtude de ser mais lento e preguiçoso, mas uma preguiça que respeita o ritmo do corpo, que permite os poros e as juntas de se espreguiçarem o quanto necessário em seu alongamento pré-doses e doses de vitamina D?  Mas, de qualquer forma, hoje não tem sol. É um clichê gritante esses dias chuvosos. Cambaleio, fora de casa por fim. Subo mais escadas, vielas, molho os sapatos, não reclamo, meias extras por experiência, quão bobo seria uma galocha? Meu avô usava galochas no dia a dia, tinha um certo apreço, tanto que me assustava com a possibilidade de um escorpião e uma aranha, só para que não usasse. Passava dias isolados dos meus pais com meu avô, uma criança já impaciente e com apreço por retiro, às vezes montava a barraca na laje do telhado, outras lá estava acordando antes do sol para cuidar da horta com o velho. Tudo isso me ocorre em vinte e oito degraus – não conto o grande da curva – numa injeção de nostalgia delirante: sono, sono e sono. Como falar do clichê sem ser clichê? Já admiro a rotina como dança contemporânea, já aprecio babaquices dando-as sentidos poéticos, ressignifico tudo, ando tolamente, seja por sono ou por esse eterno cambaleio. Os degraus me fizeram manco, por isso hoje os conto: a porcentagem hoje é de que a cada dez, sete vão te fazer cair.

Equações simples, disparadores nostálgicos, a arte como rotina. Tudo isso para afastar a lembrança gritante de um dia clichê gritante de que eu caí, sem gritar, eu caí, não nos sete dos dez degraus, eu caí, de novo em um limbo, eu caí, sem ralar o joelho, eu caí num limbo, o limbo caiu em mim, e eu me afasto dessa auto declaração mas uma hora ela vai cair por si só, tudo isso para afastar a cobrança cerebral instintiva de que, ops, aconteceu, mas foco nos degraus que já acabaram, agora é o andar até o ponto, agora é pegar o ônibus na porcentagem de sete em cada cem de que não vão estar envolvidos em acidente, é contar os sete grafites de mil que não sumiram da avenida, é saber que chegarei em sete dos quarenta minutos dessa hora específica, é saber que sete dessas oito horas são de trabalho e, por fim, que essa uma única hora que salva não me permita pensar que, sim, o clichê doentio se espalhou pelo resto dos dias.

Você, talvez entre sete que este aqui leem, deve se perguntar o que quero dizer, e eu aposto que a partir de certo momento tudo terá sentido, mesmo que mascarado de tanta metaforicidade, ou metaforismo, dependendo do exagero doentio, mas a real é que nesses dias clichês de chuva gritante, nesses dias de rotina floreada de sentidos belos e poéticos, nesses dias em que mascaro o riso com desculpa de eu sou bobo assim mesmo, nesses dias em que começo a apostar moedas em jogos que já perdi, eu, agora voltando ao banheiro, reflito no reflexo: mas tudo isso, de novo? Não eram só três vezes por vida? Sou a exceção, o degrau maior da curva da escada, o elefante que pinta?

E sou. Cambaleei bastante para aprender a andar reto. Tive de provar muitos óculos para saber que as armações não tinham defeito, eu que tenho o rosto torto mesmo. Tive que molhar as meias quatrocentas vezes para que neste ano chuvoso de clichês gritantes resolvesse levar um par a mais para cada dia de sete da semana.Eu sou bobo assim mesmo, mas vou investir na carreira, trabalhar sete das oito das vinte e quatro horas do dia, ser mais cético e menos poético, deixar os clichês gritantes serem só parte do espetáculo da rotina: é só isso mesmo, normal. Nada de mais. Não tem dança, não tem cor, não é Jesus ou fadas deixando sinais nas ruas, agora sem grafite, é só isso mesmo.

Agora, sem mais delongas mas ainda metafórico, eu assumo: cambaleio porque me encontro em êxtase nas pernas bambas, poetizo rotinas porque vejo esperança, me entrego à chuva porque é belo se molhar, ouço música na louça porque porcelana e timbre existem, nostalgio porque já amei o que vivi, perco oito das oito horas de sono porque sim, eu sou bobo e entre os clichês mais gritantes, cá estou eu mais uma vez, quebrando teorias científicas e cálculos divinos, eu sou bobo porque estou apaixonado.

Mistério resolvido, metáfora revelada, madrugada recita, Bruna Beber um dia disse:

“ (…)

sei que estou em permanente mudança
porque todos os dias abro e fecho
gavetas e caixas

no entanto aprendi pouco sobre apostas
e temporais, só sei que levam
muito mais do que trazem.

Ainda bem que tenho meias extras.

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Eu tenho asas dentro de mim. Em minhas entranhas elas descansam como grandes pétalas de uma flor, encolhidas à espera do sol. Elas abraçam minhas costelas e a cada noite que perco o sono suspirando para as paredes eu as sinto, como num impulso elétrico, como o toque de alguém nas suas costas.

Até certo momento da minha vida eu não sabia da existência desses órgãos extras em meu corpo. E agora, diagnosticado com tal situação bizarra, sempre me pego tentando entender porque elas decidiram crescer para dentro, envolvendo meus pulmões, ao invés de pra fora, elevando todo meu corpo aos ares. Já é estranho que um ser humano desenvolva asas, agora asas que cresceram ao contrário?

Nunca tinham me causado desconforto até então. Até que eu descobrisse que eu não fui o único que desenvolveu tal anomalia genética, meio homem, meio pássaro. A primeira pessoa que conheci tinha asas, mas sempre arrancava suas penas para que jamais pudessem sustentá-la. Quando viu que as penas cresciam de volta no dia seguinte, deixou seu instinto aflorar-se. Hoje ela me encontra toda semana, pairando na minha varanda com grandes asas azuis. Por um bom tempo eu acreditei que fosse meu anjo, mas o tempo todo ela me dizia que nós somos guardiões de quem escolhemos ser, porém os únicos que podemos proteger de verdade e fazer achar seus caminhos somos nós mesmos. E quando foi seu tempo, decidiu que partiria para a viagem de sua vida.

Nesse meio tempo, antes de ser sufocado por meu próprio artifício de liberdade, me deparei com outra pessoa que sofrera de um mal parecido. Quando a conheci, tinha pequenas asas de pardal, fracas, não levantariam grandes voos. Mas sabendo que seu problema não era tão grande assim, se dispôs a me ajudar. Não conseguimos nenhum avanço em fazer com que minhas asas se desdobrassem para fora de mim, porém com ela aprendi a controlar tais suspiros que causariam o aperto em meus pulmões e o desconforto de penas em atrito com meus músculos. Quando consegui controlá-las por dentro, percebi que as asas de pardal dela já não eram pequenas e fracas. Haviam se revelado grandes asas de um falcão, que sustentaria até duas pessoas. Mas essa pessoa sempre preferiu seguir seu percurso sozinha. Uma vez me disse que tudo estaria perfeito agora, pois poderia carregar a si mesma e também sua solidão, que antes pesava em suas costas.

Me deparei com mais pessoas-pássaros (alguns não gostavam de ser chamados de anjos, apesar de cumprirem tal papel), das mais diferentes asas, tamanhos, cores e experiências de voo. Algumas já nasceram para as nuvens, outras demoraram a abraçar o céu e aceitar o fardo de sentir o vento soprar direto nas penas e no rosto. Mas nenhuma conseguia me ajudar a fazer minhas asas se soltarem para  fora. Os suspiros ficaram mais frequentes e manter a concentração para que as asas não apertassem meus pulmões era uma tarefa cada vez mais difícil. Eu, tolo, achei que evitando o contato com o mundo me faria bem, então fiz minha casa, meu quarto, meus pensamentos e suspiros de gaiola.

Nada poderia ser pior que isso. Eu era um menino-pássaro com asas interiores preso em uma gaiola imaginária. Aqueles que não acreditavam em mim só pioravam tudo. Então numa tarde dessas saí pela rua, tossindo e com crises de falta de ar, colando cartazes nos postes com um desenho de um menino numa gaiola com uma silhueta de asas imitando o formato de pulmões. Esse seria meu último ato de socorro. Fiquei dias esperando que alguém captasse a mensagem e seguisse o endereço. E fico feliz de que anjos realmente tenham capacidades incríveis de solidariedade com seus semelhantes. Pois alguém um dia bateu na minha porta.

Uma garota com duas pequenas malas, uma em cada lado do corpo. Uma manta enrolada por entre as costas e os peitos, feito capa. De início achei que fosse umaandarilha,mas quando a convidei para sentar entendi a mensagem. Despiu-se da capa, revelando asas machucadas, quase sem penas, cheias de curativos que já não serviam de nada. Uma parecia mais danificada que a outra, pois nem se movimentava mais quando ela respirava. Contou-me sua história, disse que um dia quis voar além do que sua liberdade a instigava, mais do que sua capacidade permitia. Queria ir pra longe do céu cinza, queria conhecer lugares onde nenhum ser humano, com ou sem asas, jamais tinha visto. Mas foi só levantar um simples voo que perdeu a sincronia do vento e caiu de uma altura gigantesca. Suas asas, em instinto protetor, aliviaram a queda, mas nunca mais se recuperaram.

Eu a aceitei em casa. Trocávamos experiências. Eu contava sobre tudo que conhecera dos outros e ela me contou tudo que vivenciara voando, de como usava tal capacidade para ver como seus problemas eram tão minúsculos quanto os prédios visto de cima. Suas asas podiam não voar mais, mas sentia que o farfalhar das penas me confortava. E minha asfixia penulmonar era menos frequente. Vivemos bem, até que um dia ela resolveu andar por aí. Ficou fora alguns dias, o suficiente para que meus suspiros voltassem. Minha casa só era gaiola quando eu estava sozinho, quando a compartilhava com outros as grades passavam a ser abertas e enfeitadas com samambaias, trepadeiras e penduricalhos. A crise se agravou e eu subi até o mais alto quarto da grande gaiola. Era um quarto fechado há tempos, onde eu podia observar a cidade toda do alto, quase como se voasse.
Ao me deparar com aquela vista pela pequena janela que dava para um terraço estreito, minha mente se clareou. Eu sabia exatamente o que fazer, apesar de estar atordoado com as dores que as asas interiores estavam causando. Pulei a janela e quando me preparei para me jogar, um grito ecoou pela porta do quarto -Não! –  A última coisa que vi com meus olhos de menino foi a garota das asas quebradas com um olhar de desespero ao me ver caindo do mais alto quarto da mais alta gaiola da mais alta cidade.

O vento cortava todo meu corpo, ou meu corpo cortava o vento? Me infiltrava cada vez mais nos bolsões de ar, o chão seria o fim ou seria o chão que me elevaria a algum projeto de céu após a morte? Eram as únicas dúvidas na minha cabeça. Dizem que quando morremos o tempo passa mais devagar para podermos gravar todas as memórias para além da vida. Então, em frações de segundos que se transformaram em poucos minutos, eu vi a queda da garota invadindo a minha queda, inútil, pois suas asas não funcionariam. Nenhum dos dois seria salvo. Então o tempo voltou ao normal, eu vi suas asas tentando esboçar algum movimento, mas logo ela se entregara ao seu destino final. Então, num impulso que me veio de dentro dos pulmões, expirei todo o ar que pude e senti minha pele rasgando, sangue, penas, cortes, asas. Duas grandes asas cinzas manchadas se espreguiçaram e logo se mostraram fortes para carregar a mim e mais alguém que merecia os céus, não o chão.

Pousamos de volta no quarto mais alto. Caímos ofegantes, eu com a visão meio embaçada e uma dor terrível pelos cortes nas costas. Ela, já recuperada, me olhava com orgulho. Eu precisei te dar um motivo para que você as libertasse, você precisou de um motivo para que eu lembrasse para quê eu tinha as minhas, disse, balançando asas em tons claros de palha ao salmão. Ajudamos um ao outro a descer as escadas e descansamos do episódio.

No dia seguinte, vi que ela estava de partida. Mas e suas malas, pergunto. Eu só vou aprender a voar de novo, responde. Ficarei aqui até achar meu propósito, me diz. Nisso, soube que minha gaiola não seria mais uma prisão, pois minhas janelas sempre estavariam abertas. Os que conheci pelo caminho viriam me saudar e conhecer meu novo eu, agora menino-pássaro com asas cinzentas, mas que brilhavam à luz do sol.

O meu grande erro foi achar que minha liberdade não existia porque ela só predominava dentro de mim.
Meus suspiros eram na verdade a vontade de fazê-la abrir suas asas, mas com a angústia de não poder sustentar meu peso e levantar voo. O dia que consegui entender que a minha prisão era interior, aceitei minhas gaiolas como eram e me deixei voar pelos ares, vendo tudo de cima, sabendo que o chão só me serve para descansar.

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poxa.

– Poxa.

Olhava com seus olhos de jabuticaba no fundo dos meus. Já dizia a vizinha do outro quarto para darmos valor a quem nos olha nos olhos. No brilho de sua pupila eu enxergava um pouquinho de sua alma, gentil e acolhedora, tal como o dono.

Tão pequeno e tão imenso. Seus ombros curtos carregavam o mundo. E como se não bastasse, saía coletando estrelas por onde fosse, querendo saber as histórias que cada uma tinha pra contar. Sabia lê-las e nos contava tudo que tinham a dizer. Mergulhado em livros e biscoitos de limão, sem deixar o mundo sequer pensar em cair de suas costas, viajava por todas as galáxias, anotando sempre tudo, para quando chegasse às dez para meia noite pudesse me contar tudo que viu entre seu caminho de fronteiras atmosféricas inter-espaciais. Histórias tão belas unidas com sua voz de operetas, histórias que me tiravam o sono todas as noites.

E como é lindo o que ele tem pra dizer. Diz tão pouco e seu pouco é tudo que precisava. Enfiava livros em minha estante: “Leia”. Libra e libra, como dois ventos que se unem para soprar os mesmos mares, apagar os mesmos incêndios, arejar as mesmas terras. E pensar que eu o vi perdido uma vez, sem saber se ia ou se ficava, tão só em sua árdua tarefa de se decidir. Vamos comigo, eu disse, e lá estávamos nós, guardando em caixas as nossas vidas e transformando em arte o nosso amor de irmãos. Dancemos sem ritmo, bebamos em louvor a Dionísio e acendamos velas para pedir que tudo se realize. Sejamos atores consagrados de nossas próprias vidas e de todas aquelas que queremos ter. Que o Sol seja nosso holofote e a Lua seja a nossa rubrica.

Lentamente, pensando como agir, escolhendo as palavras certas. Uma sabedoria imensa dada apenas a quem sabe usar.
Filósofo, ator, escritor, pensador, músico, amigo.
O amigo que levarei para a vida que se estende além de todas as galáxias.

 

Em seu próprio aniversário, quem pede presente sou eu:

Esteja sempre comigo, meu amigo.

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