cambaleio

Cambaleio. O ano termina em sete. É um clichê gritante esses dias chuvosos. Cambaleio pela casa, devia colocar óculos, mas admiro tudo em blur. Lavo a cara, olho o reflexo. Eu dormi quantos dias? Ouço uma música, embalado em transcendência sonora, o dom da audição transformando instinto em apreciação. Sonolento, cambaleio. Ao invés de pensar no atraso, reflito questões importantíssimas. Diz que o humano é o único ser que produz arte, usam a racionalidade como habeas corpus do argumento, excluíram até o pobre elefante adestrado do grupo dos Miró Elephantidae. Mas já parou pra pensar de onde vem tanta inspiração? A simetria dos cristais e a assimetria dos troncos, a temperatura do solo e a batida harmônica da chuva, a composição curvilínea das montanhas e a orquestra marítima. Eu não vejo o mar desde outubro, noto no banho, e de repente me pergunto o porquê de não ter a opção de água salgada no chuveiro. O sono, o sono, o sono, alguém já acordou antes de mim nessa casa, percebo rastros de humanidade, cheiro de cigarro, barulhos de cozinha, é tudo uma dança, uma coreografia, tilintar de copos e facas, seria tudo música?

Cambaleio, agora nas escadas. Me visto, me permito ver o horário. Ainda em tempo, quantas vezes preciso me negar a virtude de ser mais lento e preguiçoso, mas uma preguiça que respeita o ritmo do corpo, que permite os poros e as juntas de se espreguiçarem o quanto necessário em seu alongamento pré-doses e doses de vitamina D?  Mas, de qualquer forma, hoje não tem sol. É um clichê gritante esses dias chuvosos. Cambaleio, fora de casa por fim. Subo mais escadas, vielas, molho os sapatos, não reclamo, meias extras por experiência, quão bobo seria uma galocha? Meu avô usava galochas no dia a dia, tinha um certo apreço, tanto que me assustava com a possibilidade de um escorpião e uma aranha, só para que não usasse. Passava dias isolados dos meus pais com meu avô, uma criança já impaciente e com apreço por retiro, às vezes montava a barraca na laje do telhado, outras lá estava acordando antes do sol para cuidar da horta com o velho. Tudo isso me ocorre em vinte e oito degraus – não conto o grande da curva – numa injeção de nostalgia delirante: sono, sono e sono. Como falar do clichê sem ser clichê? Já admiro a rotina como dança contemporânea, já aprecio babaquices dando-as sentidos poéticos, ressignifico tudo, ando tolamente, seja por sono ou por esse eterno cambaleio. Os degraus me fizeram manco, por isso hoje os conto: a porcentagem hoje é de que a cada dez, sete vão te fazer cair.

Equações simples, disparadores nostálgicos, a arte como rotina. Tudo isso para afastar a lembrança gritante de um dia clichê gritante de que eu caí, sem gritar, eu caí, não nos sete dos dez degraus, eu caí, de novo em um limbo, eu caí, sem ralar o joelho, eu caí num limbo, o limbo caiu em mim, e eu me afasto dessa auto declaração mas uma hora ela vai cair por si só, tudo isso para afastar a cobrança cerebral instintiva de que, ops, aconteceu, mas foco nos degraus que já acabaram, agora é o andar até o ponto, agora é pegar o ônibus na porcentagem de sete em cada cem de que não vão estar envolvidos em acidente, é contar os sete grafites de mil que não sumiram da avenida, é saber que chegarei em sete dos quarenta minutos dessa hora específica, é saber que sete dessas oito horas são de trabalho e, por fim, que essa uma única hora que salva não me permita pensar que, sim, o clichê doentio se espalhou pelo resto dos dias.

Você, talvez entre sete que este aqui leem, deve se perguntar o que quero dizer, e eu aposto que a partir de certo momento tudo terá sentido, mesmo que mascarado de tanta metaforicidade, ou metaforismo, dependendo do exagero doentio, mas a real é que nesses dias clichês de chuva gritante, nesses dias de rotina floreada de sentidos belos e poéticos, nesses dias em que mascaro o riso com desculpa de eu sou bobo assim mesmo, nesses dias em que começo a apostar moedas em jogos que já perdi, eu, agora voltando ao banheiro, reflito no reflexo: mas tudo isso, de novo? Não eram só três vezes por vida? Sou a exceção, o degrau maior da curva da escada, o elefante que pinta?

E sou. Cambaleei bastante para aprender a andar reto. Tive de provar muitos óculos para saber que as armações não tinham defeito, eu que tenho o rosto torto mesmo. Tive que molhar as meias quatrocentas vezes para que neste ano chuvoso de clichês gritantes resolvesse levar um par a mais para cada dia de sete da semana.Eu sou bobo assim mesmo, mas vou investir na carreira, trabalhar sete das oito das vinte e quatro horas do dia, ser mais cético e menos poético, deixar os clichês gritantes serem só parte do espetáculo da rotina: é só isso mesmo, normal. Nada de mais. Não tem dança, não tem cor, não é Jesus ou fadas deixando sinais nas ruas, agora sem grafite, é só isso mesmo.

Agora, sem mais delongas mas ainda metafórico, eu assumo: cambaleio porque me encontro em êxtase nas pernas bambas, poetizo rotinas porque vejo esperança, me entrego à chuva porque é belo se molhar, ouço música na louça porque porcelana e timbre existem, nostalgio porque já amei o que vivi, perco oito das oito horas de sono porque sim, eu sou bobo e entre os clichês mais gritantes, cá estou eu mais uma vez, quebrando teorias científicas e cálculos divinos, eu sou bobo porque estou apaixonado.

Mistério resolvido, metáfora revelada, madrugada recita, Bruna Beber um dia disse:

“ (…)

sei que estou em permanente mudança
porque todos os dias abro e fecho
gavetas e caixas

no entanto aprendi pouco sobre apostas
e temporais, só sei que levam
muito mais do que trazem.

Ainda bem que tenho meias extras.

mistério solúvel

Meu mistério se dissolve em pouca água. É essa coisa etérea que permanece na roupa que a gente guardava há muito tempo, poeira de memória ou pura camada fina de proteção, um sopro e se esvai, revelando um lustre ou um não-lustre dessa matéria, átomo por átomo disposto a ser analisado e influenciado pela química aérea, pela alternância cosmológica e pela crença do esotérico. Eu sou isso e aquilo também, se quiser, se puder, se acredita em mim. De repente eu amo, hoje eu só quero ouvir música, quem sabe amanhã, num impasse divino, eu me reparto e vivo mais pela metade boa, a outra que guarda o chorume e as caixas de um acumulador nato de memórias, das que aprendi e das que quis esquecer, mas as organizo como um arquivo de consulta, preciso saber como lidar com isso que já vivi, mas aí os dados não batem, a situação é outra, a lição não ensina, ou das vezes que meus braços já não alcançam essa lembrança tão boa que eu nem sei qual é, mas o sorriso bobo dos dentes tortos insiste em ser mesmo sem saber por quê, e a metade boa rouba a feição e se congela por um instante, instante, mero segundo, mero momento, morre o momento, e logo aquele vulto de um passado bom já nem é mais um monumento, são ruínas e pedras lascadas, a outra metade se volta, meio rosto sem face, uma expressão insignificante, me perguntam, você tá triste, e eu quase que respondo que não sei.
Bobagem, essa andança. Queria passar invisível, mas ando tanto que logo me percebem, o tio da banca acha estranho o mesmo menino passando, eu não estou perdido, só estou marcando o chão português com meus passos, quem sabe um paralelepípedo se solta e com esse acidente do tempo eu redefino um espaço. Queria ser aquela pessoa misteriosa, que olham de canto, olham pro outro e dizem com os olhos qualquer coisa, e logo a despercebem, voltam a falar mal da cidade e do trabalho, foi só um vulto que passou interrompendo a existência fúnebre da rotina e do cotidiano, abalou por meio segundo com sua inevitável matéria e se foi, nem percebeu o olhar ou julgamento, passou correndo como alguém que não está atrasado mas ainda corre, passou. Me policio para não pagar de louco, com a lucidez insana da obviedade de que loucos são eles que não percebem as alienações diárias, loucos são eles que não param pra olhar o céu, loucos são eles que acham chato o desbotar de uma tinta e o desabrochar de um botão, lúcido-e-são sou eu, meu diagnóstico é quase de quem se curou sozinho da paranóia, mas no caso eu a aceitei e entendi que se andarmos juntos ela não me para, andanóia, mas somos eu e ela, andamos nós, íamos. Um corpo coberto de tecido leve, toda essa armadura esvoaçante, Zéfiro volta pro ninho ao fim da tarde e quase me leva junto, mas pesado que sou, mais na cabeça do que no peito, fico em terra, deixo que leve partículas e aromas, vezes que ele rouba uma ideia ou algo que eu não deveria esquecer, vezes que penso que mesmo que anotasse, talvez a mais leve brisa levaria o papel, not meant to be, essa ideia vai parar na mão de outra pessoa, que seja, antes em fluxo do que engavetada.
A dança do caos é mais estranha que a dança contemporânea, é nosso mistério em comum, o segredo que todos partilhamos, quase como o segredo de, ei, eu também sou humano, mas não conte a ninguém, não exige nenhuma preparação, exige resistência e alterna a percepção com a coincidência, exige um fôlego que ignora fumaça e dias secos, exige uma trilha sonora que mescla voz instrumento com sirene ruído, em ritmo de desvio dos outros e baldeações terrenas, dois braços e dez dedos que funcionam como se fossem em triplo movimento, é nossa carne crua e nua, é nosso ser fluído se misturando ao concreto, é nossa vida mostrando a ausência da morte, é o medo com coragem, sou eu são-e-lúcido e eu louco-e-paranoico dançando como se abracassem um inimigo, é a ciência e o místico desvendando o acaso e o improvável, é a tinta que escorre para desbotar um dia, é a lua que só é lua porque o sol ilumina. Passos lentos, depois frenéticos, expressões fechadas mas que querem dizer tanto, tanto, tanto quanto santos na terra, cada um com seu processo de beatificação, partilhando pecados para dividir a culpa e exibindo graças para o bem próprio, améns e aleluias ricocheteando no banho de nitrato desse grande espelho que é nosso espaço vivo e estático, uma estátua falante, um coração pulsante feito de pedra, prédios que visto de cima das nuvens mais lembram grandes lápides, pores e nasceres de um céu que cria um espetáculo violeta alaranjado de poluição e atmosferismos alquímicos, eu andando pelas ruas como se fosse descobrir algo na minha perdição.
São Paulo é um grande espelho embaçado que mesmo trincado reflete o céu e quem quer refletir por ela, ela cidade-gente, capital da órbita humana e do acaso cinza, das metades boas e das outras que não se distinguem em adjetivo, centro dos jornalistas literários, que sentem e centram a poesia dos metrôs na mais egoísta forma de registro, leem o mundo com o coração e a cabeça guarda pra um outro dia que nunca chega, e depois regurgitam tudo quase que em automatismo psíquico, ouvindo jesus died for somebody’s sins but not mine, bebendo chá de microondas ou qualquer besteira sem gosto, com o mesmo gosto do pó que é o mistério que (n)os envolve, com a mesma frieza da chuva de lâminas de vidro que por vezes nos faz correr pela cidade, enxergando com a pupila dilatada nosso espírito pobre que agora vaga vagarosamente vagabundamente por essas ruas, e te percebem, te entendem, você é alguém, um de vários, mas é visto, logo desvisto, logo desviam a atenção, mas te veem, roubam a ideia que Zéfiro soprou longe, chocam-se com a miséria da sua outra metade, morrem pelos seus pecados que você inocente achou poder pecar, e meu corpo de tecido leve e esvoaçante se desfaz igual meu segredo, meu secreto dom de saber o que pensam, a visão bizarra que tenho das pessoas ora como crianças, ora tendo orgasmos, meus feitiços de proteção diários, tatuagens que me arrependo, minha vergonha, minhas dores, meu sabor e minha lábia, de repente, todos expostos em um vagão de trem abafado, como se todos aspirassem essa matéria etérea, como se, naquele instante, todo mundo provasse da mesma dor, como se todo mundo risse da mesma piada.
Como se todo mundo cantasse a mesma música.
IMG_2507.JPG

poema aromático

As pessoas em órbita
Deixam resquícios no ar
Notas de saída
Já denotam sua vinda
Ele passa
Fruta doce
Ela te esbarra
Madeira molhada
Alguém te olha
Fumaça híbrida
Você me olha
Algodão

As pessoas em laços
Incorporam seus cheiros
Notas de corpo
Anotam sua mensagem
Ele te trai
Flores secas
Ela canta
Tons cítricos
Alguém é mal
Ralo entupido
Você é bom
Hortelã

As pessoas em forma
Criam suas atmosferas
Notas de fundo
Te notam na frente
Ele te abraça
Amaciante
Ela chora
Lavanda
Alguém vai embora
Chuva
Você chega
Sorriso

A mulher que passou correndo

cíclico

E quando você me deixa, eu acabo caindo no mundo, eu bebo, eu choro, eu faço todo os clichês melodramáticos, eu fumo mais, ouço músicas estranhas, conheço gente nova, e então de novo eu bebo e eu lamento, eu reclamo, eu te xingo mil vezes, conto seus podres, às vezes até invento alguns, as pessoas riem, eu rio mas é de mentira, e no sétimo copo eu conto o seu lado bom, que é o lado que gosto de conhecer, gosto de fingir que ele é mais nítido, finjo que você não faz nada de errado, que você não está com outras pessoas, que é só o seu jeito de agora, que o errado sou eu, eu que forço tudo, eu que deveria me acostumar à essa versão nova de você, eu que ainda não entendo os relacionamentos contemporâneos, mesmo rodeado de amigos poligâmicos e abertos e livres e com todas as nomenclaturas possíveis para seus companheiros, e você, você só está se divertindo, eu não sou mais tão divertido assim também, talvez saiba manter uma conversa e criar novos universos com minhas táticas mas talvez o seu universo já te seja o bastante, e nessa epopéia eu me permito morrer um pouquinho mais, seja pelos pulmões, pelo fígado, pelos olhos ou pela cabeça, porque já não entendo meu coração, pouco a pouco o ceticismo me diz que é só um órgão a mais, aí eu começo a perder a graça mesmo, meus amigos já não querem ouvir toda a história e eu os entendo, então eu fico remoendo, a culpa é toda minha, eu sei, eu fiquei de te fazer tantas surpresas, eu fiquei te devendo o melhor de mim, você não tem culpa, a culpa é minha, a culpa é minha, acho que,  aí eu acordo, e a culpa é minha, mas, aí eu levanto, a culpa talvez não seja minha, aí eu me dedico ao trabalho, me distraio com meus estudos, minhas ideias, minhas pinturas e minhas fotos, pouco a pouco entendo de novo o coração, meus amigos querem saber e fazer parte das mirabolâncias, eu me alegro, duas semanas, eu volto a sair, três semanas, agora a culpa é sua mas eu não te culpo, um mês, tá tudo bem, tinha que ser assim, fizemos nosso melhor, um mês e pouco, já assisti tantos filmes sozinhos e descobri o prazer dos programas solitários ou com outra pessoa sem compromisso, troco ideias, troco o tempo, trocas justas, o ceticismo some, eu sinto o sol em libra de novo, como é bom ser libriano e entender a justiça das relações, como é bom conseguir transformar a dor que passou em poesia, eu volto a dançar, eu e meu melhor amigo de madrugada no telhado mais alto da cidade, não o mais alto, mas metaforicamente e momentaneamente o mais alto, eu rio, rio na cara de todos os problemas, gritamos para os carros, eu acordo no dia seguinte de ressaca, mas acordo rindo, existe vida sem você, consigo até digerir um livro de romance bobo e achar aquilo curioso, não tem problema em romantizar e dramatizar as questões do coração, só faz isso quem as entende a ponto de torná-las cafona sem medo, o amor e seus cafonismos fazem parte daquilo que nos faz humanos, eu me sinto humano agora, as coisas vão bem, sem mais montanhas russas ou expectativas, sem alarmes e sem surpresas, eu volto toda minha mania de controle para aquilo que realmente demanda minhas responsabilidades, eu arranjo um emprego novo, começo a fazer dinheiro e arranjar tempo para tornar meus sonhos estáveis e próximos das palmas das mãos, o ar etéreo se solidifica e eu vejo matérias, eu vejo rostos, eu vejo caminhos, lapidando os obstáculos de pedras brutas e transformando em joias, eu volto a ser quem eu queria ser, a culpa nunca foi minha, eu me perdoo.

E aí você me vê feliz, se vê naquele meu lugar de antes, não fazendo parte disso tudo, não como se exigisse algo, mas uma vontade de me fazer rir ou de se contagiar pelos meus risos, e você perdoa meus surtos, minha necessidade intensa de viver, entre outras coisas que você não compreendeu, sente falta da minha energia, você tenta compreender, sente falta do jeito que lido com qualquer questão de forma prática, você compreende, você me vê indo longe, um medo de ser longe demais, você me chama, com todo seu carinho e seu afeto, você me chama, com toda sua virtude de ter conquistado um espaço onde eu arranjo tempo e me sinto responsável de cuidar, você me chama, eu respondo, nós nos vemos, e por que ficamos todo esse tempo sem nos ver, e é tão bom sentir a sua mão na minha de novo, você me chama, me conta qualquer coisa e eu gargalho, você me chama, me pede ajuda só pra me sentir importante em qualquer questão, você me chama, depois você não me chama, eu te chamo, você demora, eu te chamo, você vai embora, ás vezes até se despede como se fosse voltar, mas você não volta, eu esqueço o porquê daquilo tudo, começo a me achar bobo, que bobo eu, de novo, invertendo papéis, antes eu e você, agora dois vilões, uma pena, a gente se gosta tanto, a gente se gosta tanto assim, pergunto, não sei se, aí eu esqueço das suas risadas, e você esquece de lembrar da minha, você vai embora, ás vezes se despede, de qualquer forma eu fico, eu fico e eu volto pro início.

eu, que quero tanto fluir
os outros, que querem tanto arder
respiro, um sopro a sair
se enterram, tentando entender

Entre qualquer explicação deve haver um pouco de ciência e misticismo.
Não como se fosse um equilíbrio entre astronomia e astrologia, meio que acho instigante essa treta, mas sim como um meio termo, um ponto exato onde as duas ali se separam, tipo Abramóvic e Ulay na Muralha da China. É fácil falar que tudo anda bonito porque é ano de Sol, mas às vezes eu queria um pouco mais de dados e números e explicações e menos teorias, queria que alguém que visse a situação no mesmo nível que eu me olhasse e “gente, como é que pode” e ficássemos noites e noites num quarto com luminária, uma parede cheia de recortes e anotações, fotos de pessoas e gravações, linhas que interligam fatos até que: ah, agora sim, tudo faz sentido. E no fim, mesmo sabendo da coincidência bem explanada, ficar com aquilo de “mas é ano de Sol, também”. Essa dualidade me embala, mas me questiona. Como, por exemplo, você explicaria que pessoas longínquas que você conheceu na época em que a internet era só aos fins de semana (e mais parecia uma deep web de myspaces e fotologs) se tornariam mais importantes que alguns amigos e amores que juravam amores até anteontem num post cafona de Instagram? Ou mais essa: você conhecer alguém em um emprego antigo, de repente os dois são demitidos pela mesma causa (a escola não gostava de descobrir que seus funcionários eram gays) e perdem o contato totalmente e, anos depois, vocês estão trabalhando juntos, num lugar bacana, e descobre que a pessoa simplesmente mora com uma das amigas do seu melhor amigo? Hahahaha, mundo pequeno é o escambal, eu quero dados investigativos sobre ações, direções e datas, mas também uma análise astral e também um budista me explicando sobre karmas & encontros & desencontros, como é que pode? Melhor eu parar aqui. Ou deveria contar do dia em que uma amiga fazia sua própria terapia alternativa de gritar debaixo d’água no mar e eu sonho (posso jurar que respectivamente na hora de seu ato aquático) que a mesma queria cantar uma música e só conseguia debaixo d’água, numa piscina? Explica-me ou devoro-me.

Impreterível, recebia essa palavra no meio de emails de cobranças e não sabia seu significado, melhor que Maktub, sorry, Paulo Coelho. Eu só sei que nada sei mas também sei que queria saber, alguém me diz a lógica das conexões, dos tinha-que-ser? Nem entro no assunto do coração, quantas vezes tive certeza que era aquele ou aquela e não é que era mas depois não foi mais, mas depois continuou surgindo, seja nos sonhos ou no horário de pico? Como se livrar do destino e do acaso sem que a vida perca a graça? Situações que impreterivelmente tinham que acontecer. Fica chato pensar que tem um ser ali escrevendo incansavelmente a consequência das suas decisões. O que a ciência diz das conexões que criamos de forma líquida, essas que não sabemos explicar, dos santos que não se batem ou abençoam juntos? Será que alguns de nós, que instigam pelos acasos impreteríveis, acabamos por usar mais de 10% do cérebro e desenvolvemos algum tipo de sonar, igual os golfinhos? Olha, eu te conheço de algum lugar, não me lembrarei exatamente de onde porque só os golfinhos usam 20% do cérebro, mas sei que em algum dia da vida, com uns 15%, eu usei meu sonar em você e olha só, você aqui de novo.  Acho que a gente acaba trabalhando mais com a intuição. Intuição, sempre. Acho que não tá bom, então não tá mesmo. Posso estar enganado, sempre me pego errando, mas sinto que não. Mas a gente se trai fácil. E, felizmente, nessas traições por vezes a intuição nos perdoa. Ou admite que tava errada, também. Mas ela sempre tem 20% a mais de certeza.

Apesar do choque constante, estar sempre surpreso é o que dá mais gosto. Daquilo que chamam de coincidência, meant to be, que seja, é sempre bom poder ser pego desprevenido num acaso, ora raro, ora tão frequente. Entrar no mesmo vagão, falar juntos a mesma frase, dejavús bons e os ruins também, há uma lógica sem nexo que tanto batuco mas na real gosto de saber que talvez jamais saberei explicar. Talvez, numa visão mais otimista, não estejam escrevendo nada sobre ti, mas sim que você mesmo esteja criando um roteiro de filme, com direito à trilha sonora (você tava com a música na cabeça e de repente alguém cantarola do seu lado), efeitos especiais (aquele dia que você tava cabisbaixo e de repente um dilúvio, você acaba rindo da desgraça), personagens misteriosos (e aquele senhor perto da Marechal que praticamente leu sua mente e viu que sim, você queria muito comprar uma régua mágica há meses?) e também vilões que acabam se dando mal (karma é uma vadia megera, não há perdão nem escape, agente da justiça que não justifica seus atos). Aquele teu sorriso besta que você não segurou enquanto andava vai ser visto por alguém que vai lembrar de algo que também vai gerar um sorriso besta que não deu pra segurar enquanto te via, talvez ela esperou aquilo o dia todo. E, mesmo com a miopia me forçando e exigindo mais graus, minha visão de mundo só aumenta, me diz a direção e mesmo quando me perco ignorando o Google Maps, acabo encontrando um brechó, uma moeda no chão ou no mínimo alguém pra dizer a direção certa.

Entre o cosmos e o calculus, fico no meio termo, gosto de falar que isso é normal mas também gosto de delirar com o que pode ser além, de imaginar situações, me apaixonar perdidamente por dois segundos e fingir que estou na fossa só porque ouvir Billie Holliday é bom. Danço em casa com a vassoura e finjo que o Youtube é uma vitrola, enquanto acredito que as formigas andam pela casa não porque ela está suja, mas porque tudo tem estado doce. Nossas cinzas, as conversas que ficam na sala e os jantares de madrugada improvisados na cozinha, esses eventos que sempre deixam um açúcar onipresente, rara substância, pobres artrópodes. Já li sobre as Supercordas, sobre ondas gravitacionais, também tenho lido sobre budismo e até caí naquele livro do segredo da Ana Maria Braga, mas a real, a grande real, é que o mistério é um deleite necessário, um frenesi bom, te cutuca e te irrita, mas.

Não quero explicar minha felicidade ou afogar minha tristeza, quero que cada jorro de riso e cada jarra de lágrima se propaguem e se esvaziem, todo sentimento é impreterível de ser sentido. Meus tropeços, eu sempre ando olhando pra cima, meus tropeços, necessário cair, às vezes. Mas também é necessário andar olhando pra cima, seja pra evitar coisas que caem do céu ou só pra identificar as nuvens, nimbostratus, cumulus. E eu ando tão cheio de mim, num bom sentido, perdi o medo do tarô, sai o Diabo e eu dou aquele sustinho mas na real eu já sei do que se trata, a causa já está em andamento, a cura chega logo. É bom discutir, mas também é bom deixar que as pessoas achem que estão certas. Mesmo quando você sabe que está, também.

Não luto mais contra a insônia. Ninguém morreu por falta de sono. Se morreu, não pesquisei. É relativo, dizem que perdemos dias de vida por falta de descanso mas também estou aproveitando vivo essas horas da madrugada. Que matemática falida essa da biologia, sometimes. Uma moça canta, só se vence o perigo correndo perigo, concordo tanto. Imagina deixar de falar uma cafonice de amor pra alguém com medo da pessoa descobrir que você tem um coração? Imagina não levantar da cama porque mil coisas ruins podem acontecer? E não se dar o benefício da impulsividade louca de pegar uma carona de última hora pro Rio de Janeiro, por que rio, porque é o Rio, porque sim? Que tristeza sobreviver de previsão do tempo, de estatística, de absolutas certezas. É bom também, mas vai que o dia tá mais em Peixes e você quer ser um pouquinho mais nefelibático? Não corro do acaso, me entrego, meio que espero mas ainda me surpreendo.

Imagina o que eu não sonharia acordado se eu tivesse dormido aquela noite?

A real é que eu sinto muito. Eu sinto demais.

As pessoas passam sobre minha vida tipo estrela cadente. Cada uma delas é uma surpresa tão boa. Você só as nota porque estava atento, calmo, bobo, olhando pro céu e de repente elas aparecem, você não tem reação, faz um pedido, fica feliz. São meteoros ou satélites? Talvez até pedaços de outra que findou sua existência cósmica: criou novos sistemas e planetas. Um pedido pra cada uma delas, sim. Uma promessa que espero. Eu espero tanto. Espero demais. Eu faço o pedido com o maior acalento, com o maior cuidado, tento não pedir  muito, tento ser humilde igual minha mãe me ensinou. Mas não adianta. Algumas estrelas só caem porque não brilhavam mais lá em cima.

Toda essa reflexão começou num dia de ócio, comigo na sala e as paredes rosas e laranjas, aproveitando o que seria um paraíso astral e férias forçadas no começo de uma primavera quente. Eu ouvia Patti Smith, ela gritando sussurros necessários, rolê de senhorzinho, podando as flores, consertando a casa. Eu ganhei flores duas vezes na vida. Todas as outras eu mesmo me dei de presente, cuidei e as deixei em eutanásia para preservar a beleza daquele semblante já sufocado sem suas raízes, num vidro de água da torneira. Eu olhei para todos aqueles vasos e por um minuto fui feliz, sorri e achei bobo sorrir por nada e sorri mais ainda por achar bobo sorrir do nada. Eu, fase azul turquesa, solitária, meio que. Eu, que amo as metáforas, já chamei de embolhamento, de retiro individual, de feriado auto decretado, mas na real é uma tristeza bem forte que me deprime e me põe atrás das portas, observando tudo das janelas como um refém do próprio medo, sorrindo para os carros da avenida e imaginando meu deus como eles parecem entediados pra onde tão indo será que tá calor nesse golzinho, a mulher acena, outro dia eu tava fazendo bolhinha de sabão na varanda e ela achou bonito e me mandou um beijo. Eu mandei outro e assoprei uma bolha, capaz que ela entendesse tudo o que aquilo significava.

Eu queria enfeitar o mundo. Saturar os matizes e plantar flores e trepadeiras em todos os lugares.  Mas, acima de tudo, eu queria poder colocar a mão no peito de alguém e enxergar todas as suas partes boas, pra nunca saber de todo o ruim que carregam. Porque dói tanto você sorrir sorrir sorrir e ela de repente te falta com o cuidado de cuidar de ti. Você, na tua tristeza, na tua bolha, no teu quarto, revirando os móveis, rasgando as roupas, explorando tuas veias, relimitando seus obstáculos, adoçando os olhos. Ele, perdido, sem um quarto, sem uma porta pra se trancar, não sabe de ti, não quer entrar sem bater, quer te dar o tempo que te falta pra curar, se preocupa, mas silêncio silêncio si lên cio. A telepatia não funciona sempre. O amor te dá pontes mas também cria barreiras, é daquelas coisas que te emprestam meio que dando mas você uma hora acaba tendo de devolver, te faz se sentir tão cafona mas um cafona feliz, sabe?  E o amor só funciona na telepatia. Palavra, carta, música, é, talvez a música e uma poesia ajudem a dizer umas coisas mas a real é que a mensagem só é entendida sem interferência pela telepatia. E quando as portas se fecham, as mãos não se tocam e os olhos não se adoçam nenhuma mensagem se capta. Não é um sinal total aéreo, precisa rolar uma energia, uma conexão ali de olho, de mão, de boca, de oxigênio. O amor contagia. É transmissível.

Daí que você encontrou mais uma pessoa cadente, caiu do teu céu direto pra tua varandinha, se camuflou no seu lençol de saturno e estrela, tem um astronauta na minha cama, tem algo tão transcendental entre a gente, eu nem sei o que é mas é tão tão, é tão cósmico. Cósmico nem é adjetivo pra se usar, mas é que vai além da terra, entende? E é tão bonito essa bobeirinha de início, tudo é engraçado, tudo é tão conforto, preguiça partilhada, deixa eu te apresentar meu mundo inteiro. Mas ele é astronauta, universo infinito, então que que ele vai me mostrar que já não seja meu também? Não faz mal, olha aqui toda essa bolha que eu criei, uma moça chama de realidade virtual, eu sei que é coisa pra terapia mas é que a real realidade tá tão difícil, então eu criei esse mundinho aqui. Aqui a gente pode pintar a parede de laranja fluorescente, não faz mal fumar na sala, vamos rabiscar as paredes, todo mundo é bem vindo, não tem preconceito com nada, a gente pode brincar de gato-mia sem achar coisa de criança, aqui a gente não cresce. Eu não cresci. E lá vou eu de novo, um a um desses outros seres que criaram suas próprias bolhas, apresento. Todo mundo tinha uma bolhinha bem pequena, cabia só uma cama e um caixote, a gente resolveu juntar tudo e não é que a bolha ainda não estourou? Daqui a gente vê São Paulo inteira, a cidade é meio biruta mas a gente é ainda mais, então funciona. E esse aqui sou eu, feliz que você tá aqui, é bom ser sozinho mas cansa. Fica o tempo que quiser.

Falaram uma vez que eu escrevo muito de amor. É que não tem graça escrever do que eu vejo na varanda, do que eu tenho nos livros da estante, do que eu sonhei mês passado. Eu quero falar, mil gestos com as mãos, me atrapalho todo, emendo assunto. Sempre uso “então, falando nisso” quando o que vou falar não tem nada a ver com a conversa, os amigos riem mas não param de escutar. Falando nisso, mês passado eu sonhei com você. E a vida é esse eterno deja vu, na real você não sente que já viveu aquilo, mas sim porque em algum dia você quis ser tão feliz assim. Conforto.  A gente estoca as lágrimas, vê uma janela piscando na madrugada, acha tão bonito. Bobeirinha boa, puxo papo com a moça do metrô, ajudo a senhorinha, ligo pros amigos pra falar que eles são tão bonitos, acordo dando risada da minha cara amassada. Momentaneamente, sou feliz. E uma memória puxa outra, a gente recicla o sorriso, a amiga pergunta “tu fumou, é?”.  Que nada, eu tô apaixonado. Maior cafonice do cosmo, todo um clichê que reforço, mas eu amo e quando eu amo eu quero enfeitar a casa inteira, cozinho todos os dias, eu não uso mais carvão pros quadros. É o pastel, a acrílica, sem misturar, cor pura fauvista impressionista, eu quero tirar foto de tudo. A casa se enche de flor, a bolha vai ficando pequena pra tanto amor que crio e partilho, sobra. Sobra e peço pra levarem pra casa, devolve o potinho depois, nunca devolvem, tudo bem. Mas aí acontece. Vai acabando. Esgotou o estoque, eu não durmo mais. Finjo que tem nada errado, tipo que seguro as pontas pra não fazer cena pra visita, não entrego os pontos. Reclamo pouco, só ando meio cansado, as coisas fora da bolha me afetam. E pop!, estourou. A parede de água e sabão translúcida se desfaz em mil gotinhas, espirra no meu olho, já vejo a real realidade com a visão ardida, dói. Tanta informação que não processei, tô atrasado no zeitgeist, sentiram minha falta? Sorry, tava dando um tempo de ser herói falido, agora volto, não mais herói, ainda falido. Eu esqueci como se salva uma vida.

Salvem-me, grito pelos olhos, comunico meu piscar em silêncio, oi, tá tudo errado aqui, me dá uma força. Mas a bolha estourou. O crisântemo murchou. A gérbera, antes tão vermelha, agora só folhas sem promessa florida. Tudo que eu planto morre quando eu também tô pra querer largar tudo. E, sem metáfora mas provavelmente com um drama que eu não coloquei na lista, eu queria morrer também, só um pouquinho. Poda a poda, adubo, água regulada, eu até conversei e dei nomes que já esqueci pra cada uma delas. Agora não me dão beleza, não adoçam meus olhos, sem cheiro, sem pétala, sem promessa. Eu não dou mais corda no relógio, a parede é só um laranja desbotado, melodrama tão permitido devido à situação. E o astronauta, se foi. Quis dar um tempinho ou eu mandei embora, eu não sou mais o mesmo, eu nem lembro se dormi ontem, muito menos se sonhei. Volto pro carvão, sem promessa de arte, só pra gastar e sujar a mão. E o astronauta, se foi. Foi e não quis arrombar a porta, eu agora grito em telepatia pra que alguém surja pela varanda e me impeça ou me encoraje de qualquer coisa, eu fiz o que não devia. Metáforas aliviam o peso das palavras, enfeitam até mesmo as mais dolorosas, mas até Patti Smith jogava umas verdades de vez em quando. Quando a realidade tá ali escancarada, o vento tão forte soprando ela pelas frestas da porta e pelas janelas abertas, sua fantasia de conforto se estilhaça, ricocheteia toda partícula e transforma seu ideal em indesejado, engulo a verdade, engulo a verdade, engasgo com a verdade, cuspo a verdade – o gosto ficou na boca, eu já sei – entendo a verdade. E agora todos antes presentes nas bolhas também estouram as suas, riem da tua realidade, melodrama, que exagero, já vi esse filme, deixa ele aí. E deixam. Eu sangro e estanco porque morrer dói sim, eu grito e abafo minha dor porque ninguém quer ouvir, e toda aquela mentira tão bem produzida desbota da memória, lembrança daquilo que eu queria ter acreditado por mais tempo. E você, e ele, nem notam. Se uma estrela cadente caísse em cima de mim só declarariam homicídio espacial uns dias depois, eu já poeira de nebulosa, eu já um sistema solar inteiro, eu já voltando de onde eu vim, observando tudo com uma percepção fria e sem gravidade: eterna. E o astronauta, se foi. E você, nem nota.

Eu abro meu mundo pra quem quiser. Pra quem eu quiser. E eu quero abrir pra todo mundo. Olha isso, olha aquilo, esse é ele, essa é ela, ah vocês já se conheciam, acasos bonitos, somamos à beleza da vida, vamos ser felizes porque esses dias pedem, vamos ser nós juntos enquanto é tempo. E o tempo acaba. A corda do relógio para. O tempo recruta todo mundo e de repente se juntam contra você, não pra acabar com o que te resta, mas pra rir da sua insistência. O que há de incrível na dor que eu ainda insisto? Se ninguém acredita, oh drama boy, você é um ótimo ator mas vamos partir pra outro roteiro, você tá queimando o filme, revela tua verdade.  A verdade é que a verdade é essa mesma. Vocês tão burrinhos, fofos, gosto tanto, gostei tanto. Não me orgulho da proeza do disfarce, até me prejudica. Mas, tão bobinhos. Eu sou isso aí, e agora você e você e ele e o outro ele riem de mim, ai meu deus isso de novo não. Eu que o diga, a mesma história, tá aqui meu mundinho pra você, primeiro grande estouro e  todos caem em terra, o baque faz com que desistam, eu, já acostumado, caio de pé. Eu insisto, você desiste, e assim o ciclo segue, tchau e todas as outras conveniências de todo esse teatro de te quero bem mas em outra vida maybe, posso pegar aquilo de volta, sei que é presente mas é que né.

Ciclo maldito. Mas antes isso que um quadrado, I’m a fool to want you e disso tenho noção, mas quando a música reforça: dói. Quem foi insensível, quem fingiu, quem deu menos, quem deu mais, quem o quê? Nessa altura pouco importa, leio no elevador, alguém escreveu com a chave. Escreveram meu nome. Faltou um L, risco. Não sou eu. Não sou eu subindo aqui de novo, mesmo andar, a chave gira, empurro a porta, a bolha de novo. Ninguém soprou por mim. Eu, no caminho, fui usando minha ofegância, de algo tem que valer. Ofegância dum misto de raiva e dor, agora eles estão lá como quem lê o jornal, você viu, ele tentou se matar mesmo? Se eu não soubesse tanto de karma e do quanto acabo valorizando a esperança quando resolvo insistir, juro que soltava uma dessas de que melhor se eu tivesse conseguido, só pra ver a cara de vocês do outro plano, poxa, a gente podia ter feito algo né? Mas o tempo passa e eu não quero ser um deja vu, eu quero viver sim e eu quero insistir e derrubar o tempo e todas as suas barreiras, e não mais momentaneamente, hei de ser feliz. Que pena a minha dor, doeu e quando tenho notícias do que lhe causou ela arde de novo. O tempo é inimigo mas também serve pra fechar ferida, então logo acaba. Mesmo quando te acertam no mesmo lugar que você acabou de cicatrizar, surpresa, here we go again, por que as pessoas são tão repetitivas quanto aos erros e não conseguem fazer a mesma piada ter o dobro de graça na segunda vez? É a vez de quem de fazer o outro sorrir, cansei de fazer os garotos rirem, não quero divertir, quero que me divirtam, não quero mais ter que surpreender, alguém pode me surpreender só um pouquinho? Canso. Quase desisto. Entre desisto e insisto, existo na dualidade das escolhas, um lado sempre vai pender mais do que o outro. O tarot já disse, cigana já confirmou, ou é trabalho ou é o amor, não que um anula o outro, mas já viu, né. Que assim seja. Trabalho com quem amo? Mas aí todos querem amar, ai que vergonha. Sai daqui, agora não, só me dá esse tempo, eu vou ser alguém melhor, é só uma fase, acredita em mim e outras tantas frases já automáticas que já não mais valem nada. Riem do clichê que eu me tornei e eu rio do nem clichê dos outros, antes um kitsch consciente do que um quadrinho de consultório, bleh.

A real é que o inferno astral me afeta muito, preciso descansar por uns bons dias. E ninguém entende, acha lindo astrologia mas quando o negócio pesa pra quem sente na real e não é só  dos achismos, acha bobeira, exagero, ai que drama, deixa disso. Mas eu sinto muito. Eu sinto demais. Eu sinto o que você não sente, eu olho pra tua cara e te vejo criança, logo volta a tua feição, mas eu te vi criança e que bom que eu te vi criança. A gente guarda o que foi bom mas também não por muito tempo. A metáfora clichê do coração partido parece besteira, mas quando acontecer contigo, tenta notar: estilhaça, trinca, sufoca, ofegância. Na maior das defesas de substância sólida ele se molda novamente, pouco a pouco se derrete em nova metamorfose. Esperando alguém para tirar suas asas, de novo. Ciclo. Metal heart, you’re not worth a thing, mas me ensinou muito. E quando eu digo que sinto muito, eu sou ambíguo, eu peço desculpas pelos erros e justifico que o que os outros não sentem, eu sinto em dobro. E nessas, todo mundo aprende que algumas telepatias a gente só finge que é a consciência falando.Tira férias forçadas, assopra as próprias bolhas. Some do mundo, sem melodrama suicida, mas também não deixa bilhete. E enquanto todos riem dos seus clichês, tenho que dar corda no relógio: não para. Conhecer astronauta é bom, mas olhar pro céu sem esperar estrela cadente também dá um negócio. Tropeço tanto, insisto no erro, mas pelo menos, insisto.

E dessa vez , eu cresci.